Os adeptos do risco zero

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 13 Abril 2022
Os adeptos do risco zero
  • Alberto Magalhães

Se tivemos de aturar, meses a fio, os protestos dos que negavam qualquer necessidade de confinamento, mesmo no auge da pandemia, agora temos de lidar com as sequelas hipocondríacas de quem se recusa a voltar à normalidade, enquanto houver quem morra COM Covid-19, não percebendo que muitos desses não morrem sequer DE Covid-19.

Pior, a pandemia de perturbações hipocondríacas e de transtornos obsessivo-compulsivos com rituais de limpeza, que o coronavírus veio despertar, está de acordo com o ar do tempo, em que proliferam mais e mais adeptos do risco zero, pessoas para quem a vida é tão preciosa, tão preciosa, que são capazes de gastá-la, praticamente toda, em preocupações e rituais para evitar o risco de perdê-la.

Pudemos detectá-las agora, a propósito da invasão russa da Ucrânia: “se os ucranianos se tivessem rendido no primeiro dia, ter-se-iam evitado milhares de mortes”. Podemos farejá-la nos quilómetros de traço contínuo ininterrupto, em grandes rectas no Alentejo. Ou quando nos dizem que nas cidades a velocidade máxima devia ser 20 ou 30 km/h. Ou quando transformam crianças em bichinhos de porcelana, que não se podem sujar (infectar), magoar (traumatizar), ou deixar um minuto sequer sem vigilância.

Eles, os adeptos do risco zero, ainda hão-de conseguir a proibição total do tabaco e das bebidas alcoólicas, do foie-gras e do toucinho, ah… e da carne vermelha (já excluída da ementa das cantinas escolares). Com o tempo, tornarão obrigatório o exercício físico, estabelecerão sanções para o excesso de peso e, com mais tempo, farão do Big Brother, do 1984 orweliano, um menino de coro pouco intrusivo.

Acontece que raramente passa pela cabeça destes adeptos quão arriscado pode ser almejar o risco zero e quantos efeitos perversos e paradoxais isso pode causar. Não percebem que, muitas vezes, ao protejer-se de um risco, estão a aumentar a probabilidade de uma desgraça maior, como se vem a descobrir mais tarde.

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