Os imigrantes, com i

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 08 Fevereiro 2024
Os imigrantes, com i
  • Nuno Do Ó

Ao longo destes últimos anos, conforme os dados disponibilizados pelo Observatório das Migrações, as contribuições dos imigrantes para a Segurança Social em Portugal, têm atingindo valores nunca vistos de cerca de mil e quinhentos milhões de euros, que não só têm servido para sustentar a Segurança Social portuguesa, como ficam muito aquém dos valores que são gastos com esses mesmos imigrantes. A força de trabalho destas pessoas que vêm de outros países para o nosso país, tem ajudado decisivamente a manter a nossa assistência social, contrapondo desta forma os maiores gastos que temos com o envelhecimento da população portuguesa.
Para que se saiba, a estas pessoas, que vêm de outros países para trabalhar em Portugal, devemos chamar de imigrantes com i. Tal como os muitos portugueses que continuam a ir trabalhar para outros países, lá fora, são os nossos emigrantes, com e. Para que se saiba e se acabe de vez com esta ignorante designação, estas pessoas não são migrantes. Quem migram são os pássaros e outras espécies do mundo animal. É certo que as comunidades humanas já tiveram deslocações migratórias na sua história, mas no mundo em que vivemos, há muito que todos têm uma terra e uma pátria, donde partem para outros países, à procura de melhor vida, fugindo da miséria ou da guerra, tentando enganar o destino e as enormes assimetrias que persistem no mundo, apesar de tudo, apesar da civilização, tal como os portugueses fizeram e fazem desde que há Portugal, para a Índia, para o Brasil, para a África, para o Canadá, para a América, para a França, para o mundo inteiro.
Não deve um povo de emigrantes tratar de forma menos digna aqueles que agora nos chegam, tal como nós sempre o fizemos. Não deve um povo de emigrantes deixar-se levar pelos que tentam fomentar o ódio de trabalhadores contra trabalhadores, semeando a discórdia com a qual continuam a lucrar, enquanto dirigimos a raiva contra inocentes.
Nunca houve tantos contribuintes estrangeiros em Portugal nem o valor das suas contribuições para a Segurança Social foi tão elevado quanto é agora, números que deitam por terra o que alguns insistem em afirmar, apenas para ganhar votos. Os imigrantes que vêm trabalhar para Portugal, não só fazem o trabalho que muitos de nós não deseja e muito menos para os nossos filhos, como desempenham sobretudo os trabalhos mais mal pagos, os mais arriscados e onde se trabalha mais horas.
Não deverá ser assim tão difícil perceber o logro para onde nos querem levar. Basta que olhemos para estes imigrantes e neles revermos a cara dos nossos filhos quando chegam a outros países, também à procura de melhores oportunidades. Repudiando os nossos semelhantes, esquecemos os nossos verdadeiros inimigos, os lucros dos bancos, das grandes empresas, as casas vazias, as propinas, os preços do azeite ou do gás, o desemprego, os ordenados e as pensões de miséria.
Não será assim tão difícil. Basta abrir os olhos e procurar, de facto, a verdade, sem nos deixarmos enganar pelos de sempre, agora mascarados de novos, em novos partidos, com as mesmas velhas ideias.
Se não, veja-se o que Lenine já dizia em 1919, não a propósito destes imigrantes, mas sobre a perseguição que se fazia na Rússia Czarista a outros trabalhadores. No caso judeus, mas poderíamos dar-lhe o nome que quisermos. Deixo-vos então aqui com este interessante texto, excelentemente traduzido por Pedro Tadeu, na Antena 1, no fim-de-semana passado, até que nos voltemos a encontrar, para a semana.
Antissemitismo significa espalhar a inimizade contra os judeus. Quando a maldita monarquia czarista vivia os seus últimos dias, tentou incitar trabalhadores e camponeses ignorantes contra os judeus. A polícia czarista em aliança com os proprietários de terras e os capitalistas, organizou pogroms1 contra os judeus. Os proprietários de terras e capitalistas tentaram desviar o ódio dos trabalhadores e camponeses, que foram torturados pela miséria, contra os judeus. Também noutros países vemos frequentemente os capitalistas a fomentar o ódio contra os judeus, a fim de cegar os trabalhadores para desviar a sua atenção do verdadeiro inimigo dos trabalhadores, o capital. O ódio aos judeus persiste apenas nos países onde a escravatura aos proprietários de terras e capitalistas, criou uma ignorância profunda entre os trabalhadores e os camponeses. Somente as pessoas mais ignorantes e oprimidas podem acreditar nas mentiras e calúnias que se espalham sobre o judeu. Isto é uma sobrevivência dos antigos tempos feudais, quando os padres queimavam os hereges na fogueira, quando os camponeses viviam na escravatura e quando o povo era esmagado e desarticulado. Esta antiga ignorância feudal está a desaparecer. Os olhos do povo estão a ser abertos. Não são os judeus os inimigos dos trabalhadores. Os inimigos dos trabalhadores são os capitalistas de todos os países. Entre os judeus há trabalhadores e eles constituem a maioria. São nossos irmãos, que como nós são oprimidos pelo capital. São nossos camaradas na luta pelo socialismo. Entre os judeus existem latifundiários, exploradores e capitalistas, tal como existem entre os russos e as pessoas de todas as nações. Os capitalistas esforçam-se por semear e fomentar o ódio entre trabalhadores de diferentes religiões, diferentes nações e diferentes raças. Aqueles que não trabalham são mantidos no poder pelo poder e pela força do capital. Os judeus ricos, tal como os russos ricos e os ricos de todos os países estão aliados para oprimir, esmagar, roubar e desunir os trabalhadores. Vergonha para aqueles que fomentam o ódio contra os judeus, que fomentam o ódio contra outras nações. Viva a confiança fraterna e a aliança combativa dos trabalhadores de todas as nações na luta para derrubar o capital.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com