Os livros, as leituras, os leitores e os que acham tudo isso desnecessário

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 07 Março 2019
Os livros, as leituras, os leitores e os que acham tudo isso desnecessário
  • Eduardo Luciano

 

 

Há uns anos comprei um livro de um jovem autor premiado e não consegui fazer o que faço sempre, começar e acabar a leitura da obra. Tentei várias vezes e não conseguia acertar com o ritmo da escrita, encontrar aquele fio que nos apetece puxar, até que nada reste do novelo da escrita do outro e tudo fique composto em múltiplas imagens do lado de quem lê.

No final do ano passado voltei a tentar e desta vez consegui sentir o ar que naturalmente passa entre as palavras de quem escreve com talento e terminei a leitura da obra que andou comigo em casas e estantes diferentes, guardada para quando eu tivesse a maturidade suficiente para aprender o que, estando ou não escrito, aquela soma de caracteres me ensinou.

Acabei de ler um outro romance do mesmo autor e desta vez não tive qualquer dificuldade em retirar prazer da leitura, em partilhar em voz alta passagens que entendi poderem dar origem a reflexões sobre características e vivências de personagens, em suma, que permitisse aprendizagem partilhada.

Nos últimos três meses li apenas seis livros, o que significa que estou a ler mais devagar e provavelmente a retirar mais prazer do que leio, o que me permite cimentar melhor a dimensão da minha ignorância.

Vem esta conversa a propósito de um texto do meu amigo Samuel, que partilhei na minha página de uma rede social e de alguns comentários que a mesma suscitou.

Fi-lo por ter achado estranho que dois adultos, licenciados, um professor de história, não fizesse a mais pálida ideia de quem tinha sido Mao Zedong. Fi-lo porque me apanhei a reflectir sobre a improbabilidade daquelas pessoas conseguirem ler, por não possuírem as necessárias ferramentas de conhecimento para navegarem no que não está impresso no papel, ainda que tenham quinze ou dezassete anos de escolaridade.

Levei logo com o julgamento sumário de que a minha preocupação era de que as pessoas não se interessavam sobre a “história do comunismo”, de que se eles não sabiam quem era o Mao não era grave, porque eu também não sei como se chama a mulher do George Clooney e teria falhado clamorosamente uma pergunta para a qual a maioria sabe a resposta.

Estas observações revelaram apenas que quem as fez não consegue sequer vislumbrar as razões do meu espanto, que nada têm a ver com uma postura de culpabilização das pessoas que se arriscaram a participar num programa de televisão sujeitando-se ao escrutínio de milhões de sabichões.

Talvez a observação que mais me preocupou foi aquela que sugeriu que o conhecimento do passado não servia para nada e seria mesmo uma verdadeira perda de tempo. Lembrei-me de imediato de afirmações de jovens brasileiros que não tendo passado pela ditadura militar emitiram opiniões em sua defesa, de gente que todos os dias anda a dizer que no tempo do Salazar é que era bom ou a confundir miséria (dos outros) com honestidade, de professores que conseguem falar da segunda guerra mundial sem referir uma única vez o papel do exército vermelho na derrota do nazismo, dos que alcunham de ditadura qualquer regime de que não gostam, ou de comunismo tudo o que lhes cheire, ainda que vagamente, a oposição ao capitalismo.

A minha preocupação não é com a ignorância de dois jovens sobre a história do século XX, todos somos ignorantes sobre muitas coisas, mas com o facto da coisa se transformar em “normalidade”, como se saber ler e escrever fosse coisa de uma elite intelectual.

Quando o meu amigo Chico me emprestou, aos 15 anos, uma obra de Remarque talvez soubesse que quarenta e quatro anos depois eu não desistiria de um livro apenas porque o meu ritmo era diferente do ritmo do escritor.

É por isso que os meus filhos se queixam de que as prendas de aniversário e de natal são, invariavelmente, livros.

Para terminar esta crónica, que já vai longa, deixo-vos um facto histórico: o Partido Comunista Português celebrou ontem noventa e oito anos, quarenta e oito dos quais debaixo de uma ditadura fascista, com gerações de militantes e dirigentes perseguidos, presos, torturados e assassinados.

Não se trata da “história do comunismo” em Portugal. Trata-se da história do povo português na sua luta pela liberdade. Ficam com esta informação, quanto mais não seja para não falharem se esta pergunta vos sair num programa de televisão.

E já agora, pesquisar no motor de busca da internet não costuma ser suficiente.

Até para a semana