Os malefícios da maresia, de novo

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 24 Março 2021
Os malefícios da maresia, de novo
  • Alberto Magalhães

 

 

Confesso que, tendo vivido perto do mar até aos 25 anos e passado as férias nos 25 anos seguintes a viver praticamente na praia, me tem custado ver a sanha mediática e policial contra os, alegados, irresponsáveis, que teimam em usar os passeios marítimos ou, pior, descer às praias desertas, numa descarada operação de desconfinamento ilegal. Porque estou convencido de que, se há sítio improvável para se apanhar o coronavírus é a orla marítima. Não estou a falar de praias acanhadas e à cunha em pleno Verão. Nem acharia mal o controlo, pelas autoridades competentes, da densidade populacional desses sítios, caso se tornassem superlotados. Mas, ver aquele vídeo da praia de Carcavelos deserta, apenas invadida por um jipe da GNR, que persegue um grupo de cinco surfistas, revolve-me as tripas.

No domingo, três mil pessoas sem distanciamento e, a maioria esmagadora, sem máscara, manifestaram-se do Parque Eduardo VII ao Rossio, contra o confinamento e a favor de várias teorias da conspiração. Como censurá-los se, ainda há uma semana, o Governo soprou ao Expresso que queria aprovar uma “lei especial”, que o autorizasse a “intervir mais rapidamente nas restrições sanitárias em caso de descontrolo localizado da pandemia, sem precisar do decreto do Estado de Emergência”, numa nova tentativa para dar poderes inconstitucionais ao Governo ou, na expressão de António Costa, “diga a Constituição o que diga”.

O que é certo é que, na manifestação de domingo, a PSP esteve presente, deteve três pessoas por consumo de álcool na rua, e identificou 2 ou 3 organizadores. Sensatamente, não tentou dispersar a multidão nem multar os insensatos. Mas a sua serenidade torna-se paradoxal. Expulsam-se do extenso areal três banhistas e um pescador à linha. Mas se forem três mil indignados na Rua da Betesga… já pode.

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