Os neo coisos

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 27 Junho 2019
Os neo coisos
  • Eduardo Luciano

 

 

A minha prima Zulmira é uma mulher muito atenta às ondas da moda e aos surfistas de todas as ocasiões e por isso está agora desperta para a defesa do planeta que, como se sabe, é coisa que não mete política nem futebol aparecendo como garantia da bondade de quem descobriu a semana passada que só existe uma casa comum e não há para onde fugir.

A Zulmira conseguiu desenhar a nova agenda do seu vizinho Marco, rapaz de 40 anos com um filho pré-adolescente, a partir da sua participação nas redes sociais, nos panfletos que deixa ficar ocasionalmente nas caixas do correio, das vezes que se cruzam no hipermercado e de uma ou outra troca de palavras quando se cruzam na escada do prédio que habitam.

Todos os dias o Marco leva o seu menino até à porta da escola no seu carro de gama média, não prescindindo, obviamente, da climatização artificial que garante que o rapaz não se constipa nem derrete com o calor.

Activo como é, o vizinho da minha Zulmira participa na associação de pais onde luta denodadamente pela instalação de ar condicionado em todas as salas de aula e pelo abate de tudo o que se pareça com uma árvore nos espaços livres da escola, por causa das alergias que são cada vez mais, afirma cheio de segurança, por causa das alterações climáticas.

Porque é preciso acautelar o futuro e os miúdos estão cada vez mais sedentários, inscreveu o rapazola no judo para onde o transporta três vezes por semana na sua viatura até à porta do pavilhão (diz a minha prima que não o leva à porta do balneário porque o arquitecto que desenhou o pavilhão não tinha filhos e fez os corredores de acesso muito estreitos).

Num dos dias da semana o Marco, que também é activista numa recém-criada associação ambientalista, voluntaria-se para apanhar beatas na praça central para demonstrar que se não formos nós a tratar do ambiente ainda damos cabo disto tudo.

A mulher do Marco, a Heidi, alinha neste empenho através da distribuição de restos de comida aos pobrezinhos porque, diz ela, temos de acabar com os desperdícios e poupar recursos para deixarmos um planeta melhor aos nossos filhos. Deduz a Zulmira que a senhora estará a pensar num planeta onde os pobrezinhos continuem a comer os restos dos menos pobres.

Há umas semanas o casal Marco e Heidi ficaram orgulhosos porque o seu rebento foi participar numa manifestação em defesa do planeta e até levou um cartaz que dizia “não queremos mais poluição”.

Perante tamanho empenho na causa, a minha prima Zulmira perguntou ao casal o que pensava sobre este modo de produção predador de recursos naturais e multiplicador de pobreza e assente na maximização do lucro.

Enquanto subia a escada com o saco de alface pré-lavada e embalada a vácuo num bonito saco de plástico, sorriu e com o ar de quem fala para quem não percebe nada de modernidade, atirou: oh vizinha, isso é política e eu sou ambientalista, porque os políticos são todos iguais.

Até para a semana

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