Os nossos falcões

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 09 Março 2022
Os nossos falcões
  • Alberto Magalhães

Ontem falei das pombas europeias, hoje falarei de falcões. Já aqui aflorei o meu espanto ao descobrir, numa série de generais portugueses, já na reserva claro, opiniões entusiásticas sobre a genialidade de Putin como jogador de xadrez, ou seja, como geoestratego. Apresentam-se estes vetustos militares como altos especialistas na arte da geopolítica e puxam pelos galões conquistados ao serviço da NATO que, curiosamente, tratam de apoucar, denegrir e acusar de burrice estratégica e de aventureirismo, em discurso muito semelhante ao do PCP.

Para eles, o assunto é claríssimo. A Rússia, como grande potência, teria direito a não ver invadida a sua “zona de influência” pelos avanços ocidentais civis (UE) ou militares (NATO). Assim, existiriam uma série de países, na fronteira ocidental da Rússia, que teriam de se conformar com o atraso-de-vida económico, submeter-se ao poder de oligarquias amigas de Putin e, se não ao alinhamento militar com o império, pelo menos, curvar-se ao dever de neutralidade. No caso concreto dos ucranianos, segundo estes altos especialistas, a solução era simples: virarem pombas e renderem-se a Putin.

Ora, é espantoso que quase 50 anos depois do 25 de Abril, se descubram estes espécimes nas Forças Armadas portuguesas, que ainda não integraram no seu pensamento coisas tão básicas como a inviolabilidade das fronteiras ou o direito dos países a escolherem o seu caminho. Cabe perguntar: como é que estas aves raras, com este desprezo pela liberdade e pela democracia, puderam prosperar no nosso meio militar?

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