Os Próximos

Crónica de Opinião
Terça-feira, 07 Julho 2020
Os Próximos
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Termina esta temporada de crónicas da DianaFM e partimos para férias. O I Grande Confinamento Mundial, que nos manteve, de formas diferentes, próximos de uns e longe de tantos, marcou-as. A situação inédita, de caso de vida ou morte, levou naturalmente a isso. E a muito mais. Destacaria a vitória da incoerência. Ou melhor, da incoerência como outro nome para “desculpas”, esfarrapando-as.
Fomos tratando vários assuntos a propósito do tema da pandemia, tema incerto e gerador de incertezas, audácias, arrogâncias, coragens e asneiras. Hoje deixar-vos-ei uma reflexão sobre a proximidade, talvez até para que se perceba como a tal incoerência é tão pandémica há tanto tempo e pode, por isso, causar danos a quem a descubra com surpresa e não se resolva com ela.
Ao contrário da incoerência, a proximidade é uma noção de contornos positivos. “Do bem”, diríamos para sermos melhor entendidos. Mas será sempre assim? Vamos conhecendo as suas possíveis definições e os contextos do seu uso ao longo das nossas vidas. Ou das vidas de alguns. Mais do que a demagoga proximidade alardeada por políticos de ambições locais ou paroquianas, que são na sua esmagadora maioria sinónimo de cunhas e jeitinhos, interessa-me agora a proximidade entre concidadãos. Mais: entre almas que se conhecem, pelo menos de nome, reciprocamente. Interessa-me, para terminar esta série de crónicas tão marcada pela intimidade do lar, a proximidade dos que chamamos família, amigos, colegas e conhecidos. Assim, dos teoricamente mais próximos aos mais afastados.
O I Grande Confinamento mostrou também quão relativa é essa proximidade. Dos que, pelos laços familiares ou outros (os jovens em Erasmus, por exemplo), estiveram juntos confinados, terá havido os mais ou os menos ansiosos por desconfinar juntos, ou a adiar o mais tempo possível voltarem a cruzar-se numa qualquer esquina. E a proximidade da família pode ter ganho outro significado, nessa procura do reencontro. É que há os familiares tipo empresa de eventos, que exercem a proximidade em baptizados, casamentos, aniversários e funerais, o que não é pior mas de quem não se podia esperar muito nestes tempos. No lado oposto, há os familiares que sempre foram de longe, que multiplicaram as videocalls, os grupos de chat, os telefonemas fora do horário habitual, como se tivessem estado sempre juntos antes, porque de facto estavam. E foi também com a tecnologia que se pode ter descoberto que conhecidos se tornaram mais colegas de ocupações e gostos comuns, já que do zoom à troca de e-mails foi um instantinho. Poderá ter havido colegas que estreitaram laços e se consideram agora amigos, pois as sessões ao vivo vieram multiplicar a vontade de manter o contacto que afinal nos mostrou a falta que faziam as conversas de corredor ou do bar. E, sobretudo, podemos ter descoberto os amigos que nos faziam muito mais falta do que só o encontro eventual e cíclico. Enfim, distinguiram-se, nessa presença conquistada ao Grande Confinamento, outras proximidades que se revelaram afastamentos: os conhecidos que só merecem o grau básico do civismo de um cumprimento, felizmente agora ao abrigo da “etiqueta”; os colegas que dispensam o contacto que ocupe espaço e tempo para além do necessário, roubando-os ao que realmente importa; as amizades que se revelaram com prazo de validade curto e feitas de matéria facilmente perecível; os familiares de uma genética tão ténue como uma árvore genealógica desenhada para um TPC pateta ou uma cabotina busca de um pedigree perdido.
Talvez estas observações e possibilidades sejam resultado de incertezas ou de audácia arrogante na análise simplista de coisas complexas que nem a oportunidade de retiro, para pensar, chegou. Só o tempo, como com o caminho do Corona vírus, e quase tudo o resto, o dirá. Para já, desejo o melhor Verão possível a todos – familiares, amigos, colegas, conhecidos e os nada disto que me acompanharam – e que os próximos (falo dos textos de crónicas agora) nos encontrem de saúde e com bons ares. Até lá.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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