Os trapos

Crónica de Opinião
Terça-feira, 22 Setembro 2020
Os trapos
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Falar do fim da vida, a partir das coordenadas em que a taxa de suicídios foi sempre macabra imagem de marca, não nos transforma nos maiores especialistas em como lidar com as soluções para quem vê esse fim aproximar-se. Mas pode ajudar. Torna-nos mais íntimos do que é essa realidade. Embora falar de fim de vida não signifique falar só de idosos, mas de todos quantos a têm ameaçada: seja pela doença, pela guerra ou pela fragilidade social. Coisas que roem. Com excepção da natural velhice, estas situações são complexas, com causas várias e difíceis, senão de prever, sobretudo de resolver.

Envelhecer, mesmo sendo natural e desejável, desperta muitas vezes as outras condições da doença e das dificuldades em continuar integrado na sociedade. (A vida é ela própria uma actividade de risco com prognóstico certo de morte, o que podia desafiar-nos para a aproveitarmos melhor. Porque nem sempre é possível, tantas vezes, perante a contrariedade exclamamos: é a vida! Mas exclamações não são desculpas, são o fim da linha de quem fez para que esse fim fosse o mais longe possível.)

Vivermos em lugares onde estas fragilidades são a realidade pode levar-nos a uma frieza que choca os que, à distância, têm delas visões adocicadas e românticas (no sentido de histórias com heróis que salvam e em que vai ficar tudo bem). Vulgarmente até dizemos que estes dão bitaites, são treinadores de bancada, para quem é fácil falar, porque não jogam, e só se interessam pela equipa do seu clube. Quando a desgraça sobe ao palco, incomoda, choca, e mobiliza durante o tempo do espectáculo, para depois a devolver aos mesmos de sempre: os que governam o todo, os que gerem os casos, os que vivem dos casos. E nestes há instituições que integram sistemas: são os que vivem para os casos. Aqueles cujo fim é plantar e regar uma árvore da qual nem sequer sabem se terão oportunidade de receber a sombra. Aqueles que terão de estar também atentos às dinâmicas do envelhecimento: os novos idosos, diferentes dos velhos idosos. Para que, em vez de ouvirmos que “velhos são os trapos”, passemos a procurar que se lhes diga que “qualquer trapinho lhes fica bem”. A eles e a todos os que precisarem de um apoio extra para viverem, com dignidade, muito mais tempo.

Para tentarmos mitigar as dificuldades em cumprir esta tendência, tão crescente quanto a idade média de vida, também vamos ter todos de começar a pensar mais cedo em nós próprios. É que os outros serão aqueles a quem, numa determinada altura, acabaremos por ter de nos entregar. Os outros somos nós, hoje, a tratar dos nossos mais velhos. Não vale a pena tratarmos o assunto só com… paninhos quentes. Poderemos pelo menos tentar não nos tornarmos a nós próprios gente mais difícil e escolher melhor as linhas com que nos cosemos.

Até para a semana.

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