País de grandes leitores

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 15 Abril 2021
País de grandes leitores
  • Eduardo Luciano

 

 

Esta semana a realidade impôs-se aos muitos estudos que sazonalmente indicam a baixa literacia dos portugueses mesmo dos que têm como habilitações académicas licenciaturas, mestrados e doutoramentos.

Encontramos em muitos artigos de pensadores das mais variadas origens lamentos sobre a ausência de hábitos de leitura, a incapacidade de interpretar o que se lê quando se juntam palavras. Alguns afirmam mesmo conhecer gente que consegue fazer uma licenciatura ser ter lido um único livro do princípio ao fim.

Basta pesquisar um pouco sobre o assunto e encontramos de tudo, porque a opinar somos campeões deste mundo e do outro.

Ora, nos últimos dias, foram deitadas por terra todas estas teorias sobre a pouca motivação dos habitantes da ilustre pátria para a leitura e interpretação de textos, dos mais simples aos mais complexos.

Ficámos a saber de que mais uma centena de milhar de cidadãos portugueses foram capazes de ler uma decisão instrutória com seis mil setecentas e vinte oito páginas, concluindo que o autor tinha cometido erros tão grosseiros de apreciação de conceitos, contagem de prazos e outras minudências que merecia ser banido do exercício da sua profissão.

Confesso que é obra digna de ser elevada a orgulho nacional e imediata inscrição num qualquer livro de recordes que se publicam periodicamente.

Guerra e Paz, a incontornável obra de Tolstoi, tem numa das edições que conheço mil duzentas e vinte e cinco páginas o que significa que a decisão instrutória alvo de tal leitura atenta conterá qualquer coisa como, aproximadamente, cinco vezes e meia aquela que é para muitos a obra-prima do génio russo.

Imaginem um país que tem mais de cem mil cidadãos capazes de lerem cinco vezes e meia Guerra e Paz num espaço de quarenta e oito horas. Como eu disse antes: é obra.

Se acrescentarmos que o meritíssimo juiz não terá a verve literária e o génio do escritor russo, o que tornou a leitura certamente mais difícil e, acrescento eu, muito menos prazerosa só podemos ficar espantados com tal capacidade.

Estou a referir-me obviamente a uma petição que circula nas redes sociais em que se pede a expulsão do juiz do exercício da magistratura, mas também me podia referir ás dezenas de comentadores que em cima do hora disseram tudo e o seu contrário (suspeito mesmo que alguns não sabiam se tinham sido convidados para comentar um processo judicial ou a situação pandémica).

Fico feliz por ver desmentidos todos os que se lamuriavam pela pouca apetência dos seus concidadãos para a leitura mais exigente do que as legendas das notícias dos crimes na hora ou das séries televisivas.

Sobre o caso judicial em concreto tenho cinco opiniões que construi sem ter lido as seis mil setecentas e vinte e oito páginas da decisão instrutória:

1 . Apesar da sua complexidade e dimensão, é inaceitável que se tenha arrastado no tempo de tal forma que o cidadão como eu, que não leu as seis mil setecentas e vinte e oito páginas, duvide que alguma vez chegue ao fim.

2. Estamos muito longe do fim do processo.

3. A decisão instrutória não é definitiva e aguardo com moderada ansiedade o resultado do recurso que o ministério público irá interpor e que segunda notícias recentes chegará ao tribunal da relação em 2022.

4. O processo tem de chegar a julgamento o mais rapidamente possível.

5. Não é o regime democrático que irá ser julgado, como afirmam alguns saudosistas do tempo dos tribunais plenários. Irão ser julgadas figuras, figurinhas e figurões cujo nome consta da relação dos arguidos.

Até para a semana

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