Para a Consoada

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 24 Dezembro 2021
Para a Consoada
  • Alberto Magalhães

 

Dizem os dados que andam por aí à solta, que este ano gastámos mais em prendas de Natal do que era costume. A propósito, e porque é dia de Consoada a bacalhau, deixo-vos com o início de um poema de António Gedeão que, espero, dê, a quem não o conheça, vontade de descobrir o resto. Chama-se “Dia de Natal”:

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,

a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

…………….

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

……………..

(in Antologia Poética)

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