Pensem melhor

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 06 Abril 2022
Pensem melhor
  • Alberto Magalhães

Que o governo português expulse dez funcionários da embaixada russa em Lisboa, muito provável e prosaicamente meros espiões, eu compreendo muito bem e estou inteiramente de acordo. Que Portugal cortasse relações diplomáticas com o estado russo, eu entenderia.

Agora, que o Fantasporto tenha anulado a participação de filmes russos, está para lá da minha compreensão e revoltar-me-ia se, na próxima Feira do Livro de Évora, fossem interditadas as obras dos autores russos que me habituei a admirar desde a adolescência.

Que a CME tenha aprovado, com os votos do PSD e do PS, a suspensão da sua geminação com a cidadezinha russa de Suzdal, também considerada pela UNESCO como Património da Humanidade, não consigo, de todo, perceber. Que culpa tem o povo de Suzdal das malfeitorias de Putin e seus oligarcas? Em 1991, num país em efervescência, com o último congresso do PCUS, derradeiro estertor do comunismo russo a decorrer, com falta de quase todos os bens essenciais nas lojas, os habitantes de Suzdal receberam dignamente a delegação social e cultural de Évora, foram gentis e hospitaleiros. E, no entanto, o seu desespero pela situação decadente do seu país era visível para quem tinha os olhos abertos.

Eu estava lá, como representante da Rádio Diana e testemunhei. Depois disso, houve, ainda no século passado, uma deslocação a Évora de uma delegação cultural de Suzdal e mais nada desde aí. Zero intercâmbio cultural e turístico, que bem poderia ter sido aproveitado por ambas as partes. Agora isto, a suspensão do zero. Simbólica, eu sei. Mas triste.

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