Política do protelar

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 10 Fevereiro 2023
Política do protelar
  • Rui Mendes

 

António Costa iniciou a sua governação como primeiro-ministro em 2015 com uma quase total paz social, por um lado derivada da mudança de governo, por outro lado pelo acordo celebrado para conseguir governar apoiado pelos partidos à sua esquerda parlamentar. O contexto que se vivia na altura criou essas condições.

Com o passar do tempo, os Governos de António Costa têm perdido essa aprovação. Muito por culpa própria, porque António Costa remete-nos sempre para um Portugal em ascensão, o que naturalmente eleva as expectativas das pessoas, desde logo no aumento de ganhos.

Este atual governo vive momentos particularmente difíceis. Admitamos que o contexto externo, em especial a guerra da Ucrânia e a inflação,  possam ter algum efeito no atual descontentamento dos portugueses. Contudo, a contestação social que se vive atualmente não terá apenas a ver com o contexto externo, a forma como António Costa comunica, faz criar expectativas altas na melhoria das condições de vida e o resultado é o inverso, é a perda de poder de compra.

Ontem o INE dava a conhecer que o salário médio bruto mensal em 2022 cresceu para 1411€, um crescimento de 3,6%, mas que esse crescimento foi insuficiente para compensar os efeitos da inflação. De facto, em termos reais, o salário médio em 2022 reduziu mais de 4%. Decorre daí que é uma evidência a redução do salário médio, porque perdeu poder de compra.

Mas a contestação que atualmente existe não tem a ver apenas com matérias salariais. É uma contestação alargada que, por razões de vária natureza, faz tremer a governação.

Um governo que já de si possui vários membros fragilizados, quer porque não foram as escolhas adequadas para as áreas que tutelam, quer por decisões comprometedoras que tomaram, quer ainda porque o setor que tutelam está em turbulência. Talvez por isso alguns ministros pura e simplesmente deixaram de aparecer, passaram a estar muito mais recatados.

Hoje vivemos tempos de forte conflitualidade social, algo que tende a aumentar porque o contexto social e político interno favorece essa conflitualidade. Mas também porque o Governo não tem ação e não consegue apresentar uma qualquer solução que consiga apaziguar a contestação de vários setores.

Porque o que se espera de um Governo é que governe, que tenha ação, que tenha soluções. O que vamos assistindo é a política do protelar. Nisso António Costa é mestre, e é também por isso que a contestação subiu.

 

Até para a semana

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