Preocupações ibéricas

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 30 Março 2017
Preocupações ibéricas
  • Eduardo Luciano

 

 

Esta é uma crónica feita a partir da Galiza e no intervalo do VI Encontro Ibérico de Gestores de Património Mundial.

O tema do encontro é aliciante e actual revelando as preocupações da generalidade dos gestores dos sítios classificados, com a massificação da presença de cidadãos de passagem e os resultados perniciosos que tal presença pode constituir para a protecção dos valores patrimoniais em causa.

Das intervenções que pudemos observar há um conjunto de preocupações comuns e que têm a ver com o comprometimento da identidade dos sítios.

Esse comprometimento advém essencialmente da pressão com a criação do maior número possível de alojamentos, expulsando para fora dos Centros Históricos os cidadãos que a habitariam, durante todo o ano.

A discussão em torno destes temas revela uma enorme capacidade para detectar problemas, diagnosticar patologias, encontrar causas e prever consequências.

Afirma-se que a opção central é viajar barato ou manter as cidades vivas, para logo de seguida se questionar se o encarecimento do exercício do turismo não é uma forma de o tornar apenas acessível a uma pequena minoria que se passearia pelo património sem grandes efeitos nocivos.

Afirma-se que a gentrificação é o mal maior da presença massiva da actividade turística, para de seguida nos questionarmos sobre se foi de facto o turismo que alterou as dinâmicas de ocupação do espaço, sabendo que, na maior parte dos casos, o alojamento turístico veio ocupar o vazio, porque as dinâmicas sociais locais já lá não estavam e o edificado se encontrava devoluto.

Concluímos que a divisão dos proveitos da actividade turística é injusta e concluímos que provoca um aumento do emprego, ainda que sem qualidade para os trabalhadores.

Entendemos que este caminho acabará por matar os destinos turísticos na medida em que perdem a sua identidade, transformando-se em parques temáticos compostos por pedras antigas e representações das pedras antigas, vendidas em lojas de souvenires, para logo de seguida alguém falar no valor total do negócio para uma cidade ou região.

É preciso proteger o património e a vida das cidades, que se vão transformando em espaços onde os autóctones perdem o direito à cidade, sem espaço público para usufruir, dizemos quase em uníssono, para logo de seguida tentar encontrar um equilíbrio que evite uma decisão, provavelmente errada.

Ouvimos dizer com amargura que não há um barcelonês nas Ramblas, que eram o sítio por excelência de apropriação do espaço público pelos habitantes de Barcelona.

Ouvimos dizer que durante 300 dias por ano, há um milhão de habitações vazias na Andaluzia, construídas apenas para os cidadãos de passagem.

Ouvimos muita gente a questionar se o turismo, pode ser sustentável ou meramente compassivo.

Todos afirmámos que deve ser dada prioridade à função habitacional, mas ninguém sabe como evitar a proliferação dos alojamentos locais que têm como efeito a diminuição do peso do factor trabalho no custo do alojamento a pagar.

Em dinâmicas e volumes diferentes, os gestores dos sítios apresentam muitas preocupações com o impacto desta actividade na preservação do património e na manutenção de cidades vivas.

No meio de toda esta discussão um geógrafo e economista espanhol, Juan Liberal, fez uma intervenção que nos pôs a pensar, apontando objectivos e princípios mas, ainda assim, reconhecendo não saber qual o caminho.

Afirmou ele que o problema base esteve na busca incessante de rentabilidade da existência de património histórico, quando se começou a pensar que este servia para os desígnios da rentabilidade.

Estou a citar de cor mas não andarei longe traduzindo a sua afirmação final. “O património serve para nos fazer melhorar, a rentabilidade é uma feliz coincidência”.

Por cá, estamos ainda longe dos dramas que ouvimos descrever neste encontro mas não nos faz mal nenhum começar a reflectir sobre caminhos que os possam evitar.

Até para a semana

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