Proteger a Democracia

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 27 Março 2017
Proteger a Democracia
  • Bruno Martins

 

 

Estará a democracia em perigo? Considero que sim. Os elevados níveis de abstenção, as frequentes expressões “os políticos são todos iguais”, “votar num ou noutro dará no mesmo” ou “para mim não há diferença entre esquerda e direita” são indicadores que algo corre muito mal na nossa democracia.

Não, não acho que os políticos (não seremos todos nós políticos?) e os partidos são todos iguais, mas alguns partidos e alguns políticos e eleitos têm contribuído, em grande medida, para este perigoso afastamento entre os cidadãos e as governações nacionais e locais. Cada vez que se desrespeitam os programas que foram sufragados ou as promessas feitas dá-se um importante contributo para uma morte lenta da democracia.

Vejamos o exemplo da governação autárquica em Évora. Em 2013, a CDU ganhou a Câmara Municipal de Évora com maioria absoluta pondo fim a uma gestão calamitosa do PS. Muita era a esperança dos eborenses depositada neste novo ciclo. Os eleitos da CDU apresentavam-se com um programa arrojado e próximo da população. Passaram quase quatro anos e, infelizmente, as promessas ficaram na gaveta e a governação próxima tornou-se numa governação opaca e distante que se traduz, naturalmente, em critérios de gestão muitas vezes duvidosos.

Atentemos o caso da política para a cultura. A CDU dizia fazer falta uma “nova gestão que redefinisse a cultura e a educação como vectores estratégicos para a cidadania, para o desenvolvimento local, para a afirmação da nossa identidade e para a diferenciação de Évora”, e tanta razão tinham. Materializavam esta ideia em torno de um grande objectivo: a elaboração e concretização de um Plano Estratégico Cultural que envolvesse a população e todos os agentes culturais do concelho. Passados quase 4 anos, o que fica? Nada, ou melhor fica alguma coisa, mas muito distante do prometido.

As reuniões tidas no início do mandato com todos os agentes culturais rapidamente se esfumaram (há mais de dois anos que os agentes culturais não reúnem com o município) e o plano estratégico ficou na gaveta. Parece não ter sido feito nada, não é? Errado. Foi feito trabalho, trabalho opaco e sempre com os mesmos agentes culturais. Foi sempre dito que não havia possibilidade de apoio directo aos agentes culturais, dados os constrangimentos financeiros, mas era prometida uma nova era, de trabalho conjunto e participado. O trabalho nunca chegou a ser conjunto, nunca chegou a ser participado, e passados quase 4 anos fica a clara ideia que a cultura funcionou sempre em torno de alguns, deixando muitos outros de fora.

O caso do relacionamento financeiro entre o Município de Évora e o CENDREV é paradigmático. E quero, antes de continuar, reconhecer total mérito ao CENDREV pelo trabalho que tem desenvolvido no Concelho ao longo de décadas. Mas o CENDREV não é estrutura única, como não são únicos outros agentes culturais. Aliás, se atentarmos à maior parte dos agentes culturais do Concelho veremos que a maior parte vive com a corda no pescoço, sem qualquer apoio nacional ou local. E enquanto muitos tentam sobreviver, o município de Évora, no espaço de dois anos, e tendo em conta apenas a informação pública, adjudicou mais 160 mil euros em serviços ao CENDREV, ao mesmo tempo que dizia a outros agentes culturais que lhes era impossível apoiá-los.

A política para a cultura, aliás, como a política em geral, não pode ser a que favorece só alguns, que olha a cores ou amiguismos, que deita fora promessas e programas de governação. Sim, sei da dureza destas palavras, mas não chegam a ser tão duras quanto as acções que destroem, diariamente, os valores da democracia.

Merecemos mais! Sem medo, de cabeça levantada, exijamos isso a cada dia!

Até para a semana!