Quando o trabalho nos entra pela casa dentro

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 04 Maio 2020
Quando o trabalho nos entra pela casa dentro
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

O Covid19 veio introduzir mudanças profundas nas nossas relações interpessoais, mudanças que vão perdurar por algum tempo. Mas foi nas relações de trabalho, na área dos serviços, que a mudança introduzida está já a ter repercussões mais significativas com o recurso generalizado ao teletrabalho.

A generalização do teletrabalho, que tem sido muito aplaudida, é de facto, neste momento, uma solução para obviar à paralisação de muitos sectores e manutenção dos postos de trabalho, mas é preciso ter atenção ao cumprimento de regras, em especial o respeito pelos tempos de trabalho e de descanso, sob pena de estarem a ser criadas novas formas de exploração dos trabalhadores e trabalhadoras.

O teletrabalho estava já previsto quer no Código do Trabalho quer na Lei Geral de Trabalho em Funções Públicas, como via de flexibilização dos regimes de trabalho e conciliação da vida familiar com a vida profissional, mas anteriormente ao Covid19 raramente as entidades patronais – as públicas e as privadas – aceitavam a sua realização por acharem que perdiam o controlo do trabalhador.

Mas com o sucesso da experiência actual, muitas entidades patronais começam já a ver nesta modalidade de trabalho, não um instrumento de flexibilização do trabalho, mas apenas uma oportunidade de redução de custos de funcionamento das empresas.

Por exemplo, o teletrabalho reduz significativamente a necessidade de espaço de escritório, bem como encargos com energia, água ou materiais de limpeza, que passam a ser assumidos pelo trabalhador na sua casa. Também, de acordo com alguns estudos, os trabalhadores em trabalho remoto são mais produtivos e tendem a trabalhar mais horas por dia.

Ora, esse aumento de produtividade tem de decorrer da flexibilização e da melhor conciliação da vida profissional com a vida pessoal e não da prestação de mais horas de trabalho ou da ideia de que os trabalhadores estando em casa estão disponíveis a qualquer hora ou todos os dias da semana.

De acordo com um estudo recentemente divulgado pelo INE cerca de 57% dos trabalhadores por conta de outrem tinham sido contactados pela entidade patronal ou chefia fora do horário de trabalho.

Em casa é mais difícil salvaguardar o “horário de trabalho” mas importa ter consciência de que os trabalhadores têm direito a desligar-se – seja do telefone seja do computador – e que há tempos para trabalhar e tempos para a família e para descansar, sob pena de a confusão entre a vida profissional e a vida familiar lhes transformar o dia a dia num inferno.

Há que salientar e prevenir um outro aspecto muito negativo que o teletrabalho induz: o isolamento dos trabalhadores e trabalhadoras.

A falta de contacto, pessoal e directo, com colegas não permite nem propicia a troca de ideias e o desenvolvimento pessoal, mas sobretudo desprotege os trabalhadores, que passam a estar sozinhos na sua relação com o chefe ou o patrão, sujeitos a pressões e abusos, sem rede de solidariedade entre si e com menor possibilidade de intervenção das suas organizações representativas, as comissões de trabalhadores e os sindicatos.

Sim, o teletrabalho tem aspectos positivos e, em certas circunstâncias e profissões, pode ser uma alternativa, mas não deve ser pervertido nem encarado como a forma de trabalho do futuro e menos ainda como o novo “normal” das relações laborais.

Continuem a proteger-se e até para a semana!

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