Quando os políticos têm de usar a inteligência

Nota à la Minuta
Quinta-feira, 14 Janeiro 2021
Quando os políticos têm de usar a inteligência
  • Alberto Magalhães

 

 

Segundo o dr. Baltazar Nunes, epidemiologista do Instituto Ricardo Jorge, o risco de transmissibilidade, o famoso R, que era no dia de Natal igual a 0,98, um valor razoável, em 30 de Dezembro já era igual a 1, 22, indicativo de risco elevado. Na segunda parte da reunião de anteontem no Infarmed, realizada à porta fechada, ficou a saber-se que 87% dos infectados descobertos na segunda quinzena de Dezembro não foram contactados pelas autoridades de saúde, não tendo sido realizado o necessário rastreio das cadeias de contágio, que assim se tornaram incontroláveis. Ou seja, por falta de rastreadores suficientes (em Portugal não chegam a mil, quando na Alemanha são dezenas de milhar), andam milhares de assintomáticos a infectar outras pessoas, sem o saberem.

Estas informações constam do artigo que faz a manchete do Público de ontem e ajudaram-me a consolidar a opinião de que, quando o Governo nos garante que, nomeadamente, os transportes públicos e a escola não são locais de risco, está apenas a aplicar a metodologia que vemos muitos especialistas aplicarem na televisão, o achismo, e que de facto se baseia apenas num palpite ou num desejo.

Como diria António Costa, se uns especialistas acham uma coisa e outros acham outra, cabe aos políticos, com a sua inteligência, decidir. Eu acho que seria inteligente ler o “Estudo de Infecção nas Escolas”, elaborado pela DGS e o INE britânicos e a Escola de Medicina Tropical de Londres, que testaram 10 mil estudantes ingleses em Novembro, e convenceram o governo de que valia a pena fechar as escolas, deixando apenas abertas as necessárias para os filhos dos trabalhadores essenciais. Ou o estudo de Annette-Gabriele Ziegler, que testou 12 mil crianças e adolescentes da Baviera e descobriu seis vezes mais infecções por coronavírus do que se esperava encontrar. Ou o estudo suíço, do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, que mostra que ao fechar as escolas e diminuir assim uma fatia da mobilidade humana, se reduz uma fatia proporcional dos contágios. O Governo decidiu fazer a vontade ao ministro da Educação e manter tudo aberto. Veremos se foi uma decisão inteligente.

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