Quem pode falar sobre quê?

Nota à la Minuta
Segunda-feira, 22 Março 2021
Quem pode falar sobre quê?
  • Alberto Magalhães

 

 

Há vinte e tal anos, tinha eu então responsabilidades na delegação alentejana da Associação para o Planeamento da Família, vulgo APF, no fim de uma assembleia-geral, realizada na sede nacional, em Lisboa, calhei a pôr a hipótese de realizar, em Évora, uma conferência para discutir, por uma vez, um tema mais centrado nos homens, o tema da masculinidade.

As activistas que me ouviram, rejubilaram. – Boa ideia – disse uma, e logo sugeriu que convidasse um conhecido antropólogo, assumidamente homossexual. – Excelente – disse outra – eu tenho duas amigas psicólogas, lésbicas, e posso falar com elas. Bom, ainda me recomendaram mais duas importantes teóricas do feminismo lusitano, tendo o cuidado de me avisar de que o mais correcto seria falar em masculinidades, no plural, para evitar equívocos entre as novas formas de expressão masculina e a velha masculinidade tóxica.

A minha sugestão de que talvez pudesse convidar, quem sabe, um orador tipo ‘homem heterossexual’, já que o tema também, talvez, dissesse respeito a um espécime dessa qualidade, não deixou de ser bem acolhida, pelas minhas camaradas activistas. Confesso que acabei por nunca concretizar o projecto.

Com esta história, só quero chamar a atenção para o maniqueísmo que vai tomando conta do espaço de discussão pública. Há a posição correcta e quem a toma pode falar sem peias e, depois, há a posição errada e se, de todo, não se puder calar quem a defende, arrumamo-la a um canto, no meio de muitas vozes ‘certas’. Para maior eficácia, escolhemos um representante pouco sofisticado, da posição a abater. Por exemplo, queremos fazer um debate na televisão, sobre racismo. Convidamos três anti-racistas de primeira água e o deputado Nuno Melo. E está o caso resolvido.

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