Racismo e violência: uma questão de escala(da)

Crónica de Opinião
Terça-feira, 29 Janeiro 2019
Racismo e violência: uma questão de escala(da)
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

No Jamaica ou na Venezuela, em Paris ou em Elvas, com ou sem coletes, com ou sem bandeiras, a violência estalou nos últimos tempos, em graus e relevâncias diferentes, regionais, nacionais ou internacionais. Uma questão de escala, portanto. Escala na consequência, mas também na causa, estou em crer, do lugar e da influência do discurso do ódio.

O discurso do ódio não é só o oposto do discurso do amor. Eles partilham o mesmo denominador das emoções irracionais e, por isso, não condenamos os discursos quando se limitam, a prazo portanto, à expressão íntima da paixão, da revolta, do luto. Expressão que, quando ponderada e filtrada pelo uso da razão, se vai esvaziando para permitir um convívio sustentável, um ambiente respirável. Se quiséssemos ser fundamentalistas – e às vezes bem precisamos de saber, ou de nos lembrar, por que é que não o somos – poderíamos afirmar que qualquer expressão que prometa luta a alguma coisa se bandearia para o lado do discurso do ódio. Mas depois temos as “lutas boas”: contra o cancro, contra a discriminação, contra a poluição… E a paradoxal luta contra a violência.

Quando com Abril, meia dúzia de anos depois do Maio, chegou o outro paradoxal “proibido proibir”, o verbo deixou de circular clandestino, cuidadoso porque perigoso para os dominadores e, efeito disso, para os dominados. Cantou-se em voz alta a ideologia que combatia a deformação de carácter que a outra ideologia ensinava. O combate, felizmente e apesar dos lutos – os reais, da morte, e não os figurados – o combate fez-se com palavras. A palavra, na canção, tornou-se uma arma. As paredes gritavam-nos aos olhos palavras que ditavam ordens contra a ditadura. Pois… quando mergulhamos assim devagarinho nas palavras, começamos a perceber as ratoeiras para a coerência, mesmo quando sabemos muito latim.

A escala em que usamos as palavras são como a escala musical, quer-me parecer, eu que não percebo nada de música e já quase não sei ler um dó ou um sol… Diz-me a enciclopédia do povo, a que alguns académicos já começaram a prestar atenção porque mais vale entrar no sistema para o melhorar do que ficar de fora a vê-lo degradar-se e contaminar tudo o resto, falo da wikipédia, bem entendido, diz-me que “as escalas musicais formam a base necessária para a formação de acordes e tonalidades”, que se pode “utilizar mais de uma escala para formar linhas melódicas sobre uma mesma tonalidade (…)ou ainda, explorando notas de tensão apropriadas sobre as cadências harmónicas da tonalidade.” A escala dá-nos a medida, pois claro. E é por isso que para refrear acções e reacções desmesuradas devemos medir as palavras. Para que a acção e a reacção, a de violência claro que é que traz a morte e o ódio, não se intensifique e se torne uma escalada.

Eu sou do tempo em que se dizia que os jovens já não liam nem escreviam. Também estou no tempo em que a ciência dos significados nos ensina a ler imagens para além de só olhar. Em que ver é ler, porque ler resulta em interpretar, em dar sentido a significados que lá estão, ou podem estar. Quando as pessoas olham mais do que só por olhar e vêem também lêem. É certo que às vezes treslêem e por isso há discursos, mesmo os das imagens, que não podem ser equívocos. E que não podem ser pronunciados, sejam ditos ou mostrados, por quem tem a responsabilidade de ser responsável. Se vamos dar a ler ou a ouvir a outros o que temos para dizer – a falar, a cantar, a filmar – teremos de contar com as reacções que provocamos, mesmo quando queremos ser contra. Porque o contra-poder também é poder. E é também por isso que erramos menos quando queremos, por facilitismo, generalizar conceitos usando-os no plural. (Pois, o que é de todos mais facilmente não é de ninguém se as coisas dão para o torto.) Nesta sequência lógica poderia parecer, então, que talvez já não haja racismo mas racismos. E ficaríamos todos muito mais aliviados porque cada um de nós já terá algum dia em algum lugar tê-lo sentido na pele e na alma, que estão ali tão próximas uma da outra como a sensação da emoção. É uma espécie de remedeio. De dividir o mal pelas aldeias. Depois o que é mesmo uma maçada é quando o mal alastra. E ganha escala.

Até para a semana.