Razões da perda salarial

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 12 Janeiro 2024
Razões da perda salarial
  • Rui Mendes

A 10 de março os portugueses serão novamente chamados a decidir sobre o futuro do país.

Até lá é importante desmistificar alguns temas que sistematicamente são transmitidos como de verdades se tratassem, mas não o são. Um desses temas é sobre os ganhos salariais resultantes das percentagens anuais de aumento aplicadas à administração pública.

Pelo que sistematicamente é referido parece que os Governos de António Costa fizeram um esforço orçamental para compensar os trabalhadores da Administração Pública de ganhos salariais anuais permitindo que estes anualmente vejam os seus salários aumentar em termos reais.

Mas não é verdade.

O jornal Público, na sua edição de 9 de dezembro, mostra o retrato do que tem sido a atualização anual salarial na Administração Pública desde 1986 a 2023. Durante aquele período apenas em 8 anos se verificaram aumentos salariais reais (em 1986, 1987, 1991, 1996, 1997, 1998, 1999 e 2009). Nos restantes anos ou não houve ganhos ou houve perda salarial.

É relevante referir que entre 2015 e 2023, anos de governação de António Costa, os aumentos anuais aplicados aos salários na Administração Pública nunca resultaram em aumentos reais nos salários, o que quer dizer que um expressivo número de trabalhadores foi paulatinamente assistindo, ano após ano, à perda de poder de compra. É particularmente de referir o ano de 2022 no qual os aumentos anuais resultaram numa perda salarial de 6,9%.

É de referir, também, que alguns destes trabalhadores podem ter visto alguns ganhos salariais resultantes de outras medidas de valorização, como por exemplo a revisão de carreiras, contudo aplicadas sectorialmente.

A percentagem de aumento anual atribuída aos salários deveria, pelo menos, compensar os salários dos efeitos da inflação. Seria, por assim dizer, uma medida de proteção salarial.

Desde que se adotou a aplicação de aumentos diferenciados, em razão da remuneração auferida ou da carreira, criou-se também um fator de injustiça relativa, porquanto a compensação dos salários mais baixos faz-se às custas daqueles que auferem salários superiores, ou seja, porque para os primeiros vejam os seus salários crescer em termos reais, os outros assistem à redução dos seus salários.

Acontece que os trabalhadores da administração pública sabem as perdas salariais que tiveram.

Por mais que se proclamem as medidas tomadas, António Costa não conseguiu recuperar a perda de poder de compra dos salários, particularmente dos quadros superiores da administração pública, daí que se deverá compreender toda a insatisfação que se sente globalmente no setor público.

Até para a semana

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