Razões para uma presença

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 10 Maio 2018
Razões para uma presença
  • Eduardo Luciano

 

 

Nas duas últimas semanas não me foi possível estar na vossa presença com a habitual crónica modesta que faço questão de vos contar há uma dúzia de anos.

Para as três ou quatro pessoas que costumam ouvir ou ler o que escrevo, os meus pedidos de desculpa mas, de facto, era-me impossível cumprir o ritual.

Não, não estive doente nem fui de férias para uma ilha paradisíaca. Também não estive tão assoberbado de trabalho que me fosse impossível gastar meia-hora a cumprir esta obrigação.

Apenas senti que não tinha nada que valesse a pena dizer sobre os assuntos que o sistema de informação padronizada nos coloca ao dispor para opinemos a preto e branco.

De que iria eu falar? Do fantástico espectáculo de interrogatórios judiciais tornados públicos para gáudio de quem anda à volta dos esgotos a farejar podres que tornam santos quem os fareja?

Das intermináveis horas de futebolês nas televisões, sem que se veja uma única vez a bola a rolar?

Poderia sempre discorrer sobre os cornos de um ex-ministro ou o seu alegado projecto de garantir a reforma segura, mas nem quero acreditar que um banqueiro seja tão poderoso que consiga influenciar na formação de um governo do velho arco.

De que iria eu falar então, nas últimas duas semanas? Da contínua forma estranha de fazer política local, recorrendo à calúnia, ao lançamento de suspeitas, à utilização de perfis falsos nas redes sociais?

Sempre poderia opinar sobre o encontro entre os presidentes das Coreias, do ataque do regime dos Estados Unidos à Síria com o mesmo fundamento com que arrasaram o Iraque ou colocaram as botas no Vietnam, mas seria opinar sobre lugares comuns que repetem, mudando alguns actores e mordomos.

Perante tanta ausência de motivo para opinar, resolvi primar pela presença no mundo real ausentando-me por duas semanas da ilusão de que o que vos digo serve para alguma coisa para além de me divertir.

Justificações dadas, gostaria de vos deixar o desafio de pesquisarem um pouco sobre o Maio de 68, ou de reflectirem sobre como a cadeira grande da CGD se transformou na placa giratória para ex-governantes e gente ligada ao PS, PSD e CDS, transformando o banco público num instrumento ao serviço do poder económico relegando para última plano o interesse nacional.

Diz a minha prima Zulmira que a vida não se vive aos quadradinhos. Por isso, tirem os olhos desse monitor e respirem os odores da outra prima, a Vera. A Primavera.

Até para a semana