Realidade virtual

Crónica de Opinião
Quarta-feira, 08 Fevereiro 2023
Realidade virtual
  • Maria Paula Pita

 

Uma jovem desaparecida há oito meses, com 16 anos, foi encontrada na casa de um eborense de 48, aparentemente sem indícios de estar contra a sua vontade.
O “casal apaixonado” teria uma “relação” desde os 14 anos da jovem e ter-se-iam conhecido através da internet, devido à dependência que ambos tinham: os videojogos.
Navegar na internet foi, durante os anos da pandemia, uma mais valia, mas traz muitos perigos associados. Alguns pais congratulam-se por os filhos não saírem de casa, não tendo noção dos perigos a que estão sujeitos e o quanto estão vulneráveis a discursos de ódio, cyberbullying e a ataques de pessoas mal intencionadas. A dependência face aos jogos online já é considerada, nos meios académicos, como gaming disorder, um distúrbio no âmbito da saúde mental. Crianças e jovens com fracas competências sociais e com dificuldades em lidar com o stress e a frustração, podem desenvolver dependência no uso da internet e dos videojogos. A solidão que sentem, a alienação em que se encontram, leva-as a procurar amigos e atenção em pessoas desconhecidas, para compensar o vazio que sentem na relação com quem lhes é próximo. Estes jovens estão à mercê de predadores de todo o tipo, incluindo os sexuais, que conhecendo a sua vulnerabilidade e aproveitando-se dela, colocando-os contra os pais ao assegurar que são os únicos que os compreendem, ganham confiança ao ponto de os atrair para encontros presenciais, que têm tudo para correr mal. O que dizer de quem se aproveita da fragilidade dos jovens, nos chamados desafios, que consistem no cumprimento de tarefas perigosas que culminam, por vezes, em mortes acidentais ou mesmo em suícido.
Nem todos os adultos serão predadores, mas a verdade é que a dependência os faz ter um comportamento cuja gravidade resulta num grave prejuízo de vida pessoal, familiar, social, ocupacional. Perder a noção da realidade, das relações e convenções instituídas, da moral, do respeito pelas regras, achando-se sozinho no mundo em busca de compreensão. Claro que considerar a dependência uma doença, faz com que se preste menos atenção às questões que a originaram, isto é, tratamos o sintoma mas não o problema, depressões, baixa autoestima, isolamento, fraca perceção da realidade.
De acordo com o noticiado, teriam uma relação amorosa o que nos leva a questionar qual a fronteira legal entre o consentimento e o abuso. Em Portugal, a idade legal para uma menor ter relações com um adulto, sem relevância penal, são os 16 anos. Poder-se-á considerar que uma jovem se sinta atraída por um adulto porque há o desejo de independência, o desejo ou a ilusão de poder-se fazer tudo, de procurar preencher ou suprimir uma lacuna familiar, mas será que não é precoce para o consentimento sexual com um adulto, em que o acumular de experiências e recursos gera uma desigualdade de poder entre o adulto e o adolescente, que implica abuso e manipulação?
Uma última palavra para a demora de obtenção dos dados do telemóvel da jovem junto da operadora. É urgente a alteração da Lei dos Metadados ou, pelo menos, uma diferente interpretação da lei que não seja tão minimalista e demasiado restritiva. Os meios de obtenção de prova têm que se ajustar aos meios cada vez mais sofisticados usados por quem não cumpre a lei.

 

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