Referendado e aprovado

Terça-feira, 03 Maio 2022
Referendado e aprovado
Lá se encaminha para o desfecho a saga do orçamento para este ano aziago; mais um a marcar os anos 20. Os que têm, pelo menos parece, tendência para serem os anos loucos de cada século.
Não sei se muitos se deram conta de que foi um orçamento, não apenas aprovado por Partidos na AR, mas referendado pelos cidadãos que, através das eleições legislativas, deram maioria absoluta ao Partido do Governo. Também me parece que esses cidadãos que, em consciência, votaram, sendo portanto cidadãos atentos e empenhados, também em consciência sabem que as circunstâncias não permitem que o orçamento nos leve, sequer às portas, do El Dorado.
Assisti intermitentemente a várias intervenções dos deputados. Foi um bocado penoso, embora compreensível, ouvir a argumentação da oposição. Sei que não é fácil fazer oposição quando, em consciência, a resposta à pergunta “nós faríamos melhor?” é “não”. Mas quando se está no mundo parlamentar da Política (o que não é o mesmo que estar na posição política da gestão mesmo que, e é importante que assim seja, se aja e decida em função de princípios ideológicos defendidos por Partidos), quando se está na vida parlamentar, a obrigação é mesmo fazer oposição.
Fazer oposição não significa apenas atribuir a quem está no Governo a culpa de todos os males do mundo. Fazer oposição não pode limitar-se a fazerem-se exigências para se aumentar, por artes nunca antes confirmadas como eficazes, o que costumamos chamar a “manta”; a tal que quando é curta ora tapa os pés, ora tapa os ombros, mas nunca conseguirá tapá-los todos ao mesmo tempo.
Fazer oposição é também estimular a pouco portuguesa prática de “accountability”, ou seja, prestação de contas, e pedir esclarecimentos sobre os actos de gestão e as opções de decisões tomadas ou a tomar. Por isso se discutem e aprovam relatórios e planos de actividades com respectivos orçamentos. Por muito técnicos e burocráticos, e aborrecidos, que sejam, estes são documentos estratégicos e, como tal, políticos. (Tenho tanta pena que pessoas com responsabilidades não entendam isto e os tratem “com os pés”… }
Fazer oposição é também o difícil equilíbrio de perceber que há opções que, quando deixadas serem tomadas, permitirão que quem se quer que saia prejudicado se “espete” e baste sair da frente; mas desejando que isso não arraste muita gente no desastre. Até porque, a memória das pessoas, não sendo igual à do elefante, também pode ser bem reavivada. Repito: bem reavivada. Toda uma oportunidade ganha quer para histórias de ficção, quer de nostalgia. Toda uma oportunidade perdida, quando o problema não está na oposição que se pode fazer a adversários, mas no empenho em esconder os melhores dos seus. Oposição feita também quando, a bem do bem-feito, se reconhece que há erros e más escolhas a não repetir. Não é fácil e dá-se-lhe pouca atenção. É pena.
Até para a semana.

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