Reflectir sobre o futuro

Crónica de Opinião
Terça-feira, 04 Julho 2017
Reflectir sobre o futuro
  • Cláudia Sousa Pereira

Li a expressão “reflectir sobre o futuro” a propósito das andanças dos mercados do futebol. Foi até o espanhol Casillas quem o terá afirmado a um jornal italiano, segundo a imprensa, facto pouco importante para o caso, apenas partilhado por vício académico de referência a fontes, conhecida no meio como “honestidade científica”. Chamou-me a atenção uma certa impossibilidade da afirmação “Estou a reflectir sobre o futuro.”, em qualquer das línguas em que pudesse ter sido dita e roçando a poesia quase banal na forma, mas profunda nos seus sentidos plurais. E útil, como só a arte sabe ser!…
Reflectir é, etimologicamente, também “dobrarmo-nos” ou “debruçarmo-nos” sobre algo. Como podemos fazê-lo sobre o que está por acontecer? Era esta a impossibilidade da frase de Casillas onde, está bom de ver, o verbo foi utilizado como sinónimo de “pensar”. Uma aproximação que, mesmo vindo de alguém que joga com pés e mãos, demonstra como naquilo a que chamamos jogo para além do lúdico e mexe com a realidade de cada um, a projecção no futuro, a previsibilidade de factos por acontecer, requer pôr os neurónios a funcionar perante dados que, mesmo dados como adquiridos, merecem leitura, interpretação e avaliação.
Tendemos a apreciar os que “se atiram de cabeça” adjectivando-os de corajosos. E tantas vezes essa atitude é a mesma de uma criança que, por falta de vocabulário, faz afirmações que parecem versos, esses que também são fruto do olhar inaugural do Poeta, acrescentado com o trabalho aturado do verbo sobre a realidade até banal. Mas é a inconsciência que nos torna afoitos. Quando assim não é, gostamos de lhe chamar “risco calculado”, o que não deixa também de ser uma expressão interessante, pois por muitas contas que se façam e batam certas numa dada circunstância, o correr ininterrupto do Tempo pode alterar os resultados pela introdução de outras circunstâncias.
“Reflectir sobre o futuro” é, pois, a expressão banalizada de recolher informações e analisar dados para, depois, decidir como agir. O que se faz com esses dados e essas informações vai, isso sim, diferir dos diferentes usos que se faça dos neurónios com os mesmos elementos. E é aqui que uma pessoa bem informada pode sempre parecer muito inteligente e uma pessoa muito inteligente, por falta de informação, pode nem sequer o parecer. A história do cientista distraído é mesmo só um eufemismo para aquele que, absorto na sua tarefa, ignora todos os sinais que o rodeiam e onde há sempre informação útil a retirar-se.
“Reflectir sobre o futuro” é um exercício que, quando praticado regularmente a todo o momento atrevo-me a dizer, acrescenta à informação o que falta para esta se tornar Sabedoria e Conhecimento. Mesmo nas coisas mais pequeninas e pessoais. Tão mais importante quando temos connosco outros que dependem desse futuro, de quem queremos ou temos de ser líderes. E onde a coragem dos que se atiram de cabeça pode ser tão desmiolada.
Até para a semana.

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