Relembrando Hannah Arendt

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 04 Novembro 2022
Relembrando Hannah Arendt
  • Glória Franco

 

 

Viva

Imaginando cenários inviáveis, se Hannah Arendt tivesse assistido ao que se passou nas últimas eleições brasileiras, talvez nos conseguisse explicar o que levou tantos eleitores a votarem em Bolsonaro.

O que pensaria e escreveria sobre o que se está a passar no Brasil?

Sabendo que somos todos diferentes e que, é na pluralidade e nas mestiçagens que nos tornamos livres, democráticos e tolerantes, só podemos encarar esta alteridade como algo com enorme significado nas nossas vidas.

As atuais realidades que nos impõem vivermos, obrigam-nos ao coisificar de verdades que, por vezes, entram em confronto com as verdades das nossas liberdades.

Se Hannah Arendt fosse viva certamente nos brindava com escritos em que a banalização do mal seria transportada para outros lugares, para novas vivências. Como se existisse uma banalidade do mal global onde, a crença na realidade da vida e a realidade do mundo não fossem a mesma coisa.

Se na maioria dos casos, as nossas vidas só de nós dependem e as vivências societárias transcende, por vezes, o nosso entendimento do mundo, ao reler os seus escritos e ao transportá-los para as nossas realidades, não posso deixar de pensar a sua atualidade.

Ao escrever sobre totalitarismos e Direitos Humanos não os encarou como algo informal, explica-nos de modo claro e esclarecedor muitos dos fenómenos que estão a acontecer neste do século XXI.

O que pensaria Hannah Arendt sobre os recentes acontecimentos no Brasil (a que estou a assistir na televisão e que possivelmente quando da edição desta crónica já estrão ultrapassados)?

Talvez, que o mal se esteja a tornar banal. Os comportamentos extremistas e antidemocráticos assumem proporções galopantes. Esta tolerância para com a banalização do terror autorizado, vai relativizando ditaduras contribuindo para a sua normalização.

Uma estupidificação enraizada só ganha espaço através de uma espécie de ortodoxia do momento onde, uma errância de pensamentos assume protagonismos excessivos. Constroem-se espirais de ideias que ao assumirem valor experimental encerram comportamentos adversos aos valores das democracias representativas.

Se Hannah Arendt fosse viva talvez se tornasse uma espécie de arqueóloga das ideias, em que, deparando-se, tantas vezes, com a banalização de tantos males os transformaria em algo que, ao terem o seu início em tempos idos, sobrevivem no presente.

O princípio da coerência começa a deixar de existir, já ninguém pensa em se suplantar pelas ideias e os acontecimentos sucedem-se sem que ninguém sobre eles reflita.

Que falta que faz a algumas pessoas relerem Hannah Arendt.

Saudações LIVRE’s

 

Até para a semana

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