Restaurar

Terça-feira, 01 Dezembro 2020
Restaurar

 

 

Em dia da Restauração, a que foi conseguida sob o ceptro de um rei que, parece, teria pouca vontade de governar, mas a quem caiu a coroa na cabeça e a mulher, D. Luísa, terá espicaçado para que se mexesse, apetece-me mais falar num génio do que num rei sem jeito, levado ao colo. Há por aí tantos desses a acharem que são reis…
Num momento em que a aprovação final do OGE para 2021 foi precedida de um espectáculo dado pelos deputados da oposição, podia falar de como se comprova a urgência de restaurar o nível das lideranças na nossa democracia. Mas apetece-me mais falar num génio cheio de contradições assumidas e por si alimentadas que o ajudaram a tornar-se numa lenda. Há por aí tantos que, cheínhos de contradições que negam, acham que ainda assim se tornarão lendas…
Podia falar de cumprir calendário como se fosse um dia santo ou uma quadra festiva cíclica, e comentar sobre como se pode transformar um congresso partidário num ritual para-satânico a fingir. Mas apetece-me mais falar num génio que desafiou limites por sua conta e risco, cedendo, sem rodriguinhos nem desculpas esfarrapadas, a todas as tentações a seu bel-prazer. Há por aí tantos a achar que nós não lhes estamos a topar as agendas, os calendários e os rodriguinhos…
A passagem de Diego Maradona à Eternidade, tão definitiva quanto a Humanidade, restaura a figura do génio, algo romântica: o que não finge a impressão do esforço e não prescinde dos excessos socialmente condenados. Uma realíssima conquista da sua própria estranha forma de vida, livre e poderosa, genial portanto. E é o que não precisamos de apontar como modelo a ninguém e que ficará assim, figura única, a encantar quem só pode ser espectador dessa sua genialidade, sem o invejar.
2020 foi, pois, também o ano em que um dos poucos génios da Humanidade se desmaterializou. Curiosamente, um génio que flutuou no palco do futebol, onde se enfeitiçam até ao limite das reacções mais irracionais (“o ardor infantil no peito maduro”) massas indistintas de seres humanos a esquecerem-se do resto da vida.
Em ano destes talvez devêssemos, enquanto colectivo, equilibrar a evasão desculpada pelas circunstâncias e, também por essas circunstâncias, pensar em restaurar alguns sistemas em que nos enredámos. Ainda que marcados e alertados para memória futura de fundo de baú, tentar esquecer depois o que perdemos em 2020.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

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