Sanções, boicotes e consequências no dia a dia e nos tempos próximos.

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 16 Junho 2022
Sanções, boicotes e consequências no dia a dia e nos tempos próximos.
  • João Simas


Não conheço nenhum caso em que as sanções económicas tenham resultado em implementação da democracia. Há quem aponte o exemplo da África do Sul. Mas não foi pelas sanções que o regime de Apartheid, que durante muito tempo foi tolerado, mudou. As sanções aprovadas foram sempre contornadas por várias potências conhecidas. O que mudou foi a situação internacional, com a independência de Angola e Moçambique e a luta do povo sul-africano. Segundo Nelson Mandela a viragem foi a batalha de Cuito-Cuanevale em que o exército invasor foi derrotado pelas forças armadas angolanas.
Outros casos conhecidos de boicotes, como no Irão, Síria, Líbia, Venezuela … também não contribuíram para um mundo melhor.
Foi fácil proibir e censurar músicos e desportistas só por terem nacionalidade russa. Criou-se um ambiente de xenofobia em que têm sido proibidos concertos de Tchaikovsky, que viveu no séc. XIX, e maestros têm sido expulsos de orquestras. Até o festival da Eurovisão, que admite a Austrália ou Israel, afastou cantores, por terem nacionalidade agora na lista negra. Em relação a eventos desportivos, o mesmo.
Com as sanções financeiras pôs-se em causa a credibilidade dos bancos. Desmorona-se um conceito fundamental: a confiança! Quem vai futuramente acreditar no sistema, se a qualquer momento podem acontecer confiscos e bloqueios? Claro que isso não vai afetar os “magnatas” que têm o seu dinheiro em paraísos fiscais. Mais iate menos iate, o capital saqueado aos povos (russo, ucraniano, etc.) está assegurado.
Quanto ao petróleo e gás a situação tem sido menos clara. Corta-se, não se corta, uns avançam, outros recuam. Perante uma situação internacional, em que alguns países viram destruídas as infraestruturas, por situações de invasão, como o Iraque ou a Síria, por boicote, como o Irão ou a Venezuela, outros que não querem aumentar a produção para não baixar os preços, como a Arábia Saudita, a inflação dispara. Já tinha começado antes da invasão da Ucrânia, agora por opção dos EUA e União Europeia, os preços sobem exponencialmente, arrastando toda a indústria e comércio nessa espiral de inflação, que vai ser paga pelos do costume. Entretanto há quem ganhe muito com isso.
Choram-se “lágrimas de crocodilo” pelo trigo e milho da Ucrânia e Rússia que não vai chegar a países dependentes e pobres. Nunca se tinha visto tamanha preocupação com os países africanos e outros! Os portos do Mar Negro estão bloqueados pela frota russa, mas também pelas minas que a Ucrânia colocou, impedindo-se assim o comércio internacional. Alguém vai ganhar com isto. Os preços aumentam diariamente, fazem-se bons negócios e “lá vamos, cantando e rindo”, com o poder de compra a diminuir aceleradamente.
Boris Jonhson que passou do discurso xenófobo contra o “canalizador polaco”, tem aproveitado a guerra para esconder problemas, mas agora manda refugiados sírios e outros para o Ruanda, onde há poucos anos houve um dos maiores genocídios das últimas décadas. A extrema-direita vai-se normalizando por todo o lado. Orçamentam-se mais gastos militares, diminuindo-se as despesas sociais.
Mas a maior parte do mundo não pensa assim. Nem a China nem a Índia, os países com mais população do mundo, a maioria dos países da Ásia, os países do continente africano, a América Latina … não querem saber de sanções.
Começa a sentir-se algum cansaço perante tanta propaganda. Já não se aguenta o vociferar contínuo e unilateral dos pregadores.
A Europa isola-se e as populações estão a pagar. O mundo reorganiza-se.
Não seria possível haver um pouco de bom senso e pragmatismo e envolver os organismos internacionais na procura de soluções?

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