Saudades de uma mão forte

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 03 Julho 2020
Saudades de uma mão forte
  • Alberto Magalhães

 

 

Decorridos 46 anos sobre o derrube do Estado Novo, ainda persiste no país um cheirinho a sabujice frente à autoridade, uma saudade, aqui e ali mais funda, de uma mão realmente forte que ponha a canalha na ordem, um sentimento anti-político por vezes mais medroso (do tipo “a minha política é o trabalho”) outras vezes mais untuoso (do género “ele há tipos que só sabem dizer mal”) ou então autoritário (“não merecem a liberdade que têm, abusam logo… se fosse eu a mandar…”). Enfim, resquícios de 48 anos de ditadura, se quisermos ser vulgarmente anti-fascistas e republicanos, ou de duzentos anos de decadência pátria se quisermos ser um pouco mais rigorosos, sem ir demasiado longe.

Seja como for, se nos aguentámos com Salazar e Caetano durante quase 50 anos, e alguma coisa disso ainda nos molda os hábitos mentais, imaginem os russos, que passaram directamente do feudalismo para a ditadura soviética e que durante cerca de 70 anos sofreram o jugo totalitário de uma máquina tendo à cabeça figuras sanguinárias como Lenine e Estaline, figuras grotescas como Kruschev, Brezhnev, ou Tchernenko e, depois de Gorbachev, uma figura como Ieltsin a dirigir a transformação abrupta de um sistema totalitário mas conhecido, pobre mas com alguma estabilidade e previsibilidade, num caos assustador de capitalismo selvagem e mafioso.

Admiramo-nos que desde 1999 Vladimir Putin seja o líder preferido dos russos? Que esta semana, 78% dos eleitores votassem a favor das reformas constitucionais, que vão permitir a permanência de Putin no poder até 2036? O regime é democrático? Niet. A Rússia deixou de ter um regime mafioso? Niet. Mas tem um homem forte, que traz Donald Trump à trela, reconquistou a Crimeia e consegue assustar a Europa.

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