Se não fosse a falta que faz…

Crónica de Opinião
Terça-feira, 23 Junho 2020
Se não fosse a falta que faz…
  • Cláudia Sousa Pereira

 

 

Esta seria a semana que, em Évora, a Feira de São João estaria a “bombar” em pleno. Será, ao que consta, a terceira vez que nos quinhentos anos de existência ela não se realiza, novamente por questões de saúde pública como terá sido na primeira pestilenta vez, diz que rezam os arquivos. Para mim seria a trigésima Feira, numerozinho redondo a marcar o número de anos que levo a contribuir para a demografia do concelho e da região.
A Feira vai fazer falta a muita gente. Aos que com ela faziam negócio e aos que nela negociavam; mas também aos que nela faziam do ócio um lugar comum, sem lista de convidados a reservar o direito de admissão. Enfim, para todos, ainda que mais para os alguns com uns euros para gastar, e para os que se reencontram pelo menos uma vez por ano, em regresso esporádico à terra natal.
Vai fazer falta aos que dependiam em parte dela para se mostrarem aos outros, em acções de divulgação ou propaganda, lado a lado, em pé de igualdade no acesso a serem expositores por uma dezena de dias, embora havendo sempre mais matéria de alguma queixa do que motivo de louvor à entidade promotora. Também vai fazer falta aos que são pelas tradições, tal como fará aos que estão fartos do que é sempre a mesma coisa e lá vão, religiosamente, mais um ano acrescentar juros ao capital de queixa.
Alívio mesmo, deve ser só para dois segmentos deste velho mercado do feirar: o alívio dos que abominam este tipo de evento, ainda para mais a empatar o dia-a-dia; e o alívio dos que vão poupar uns milhares e muita mão-de-obra e hora extraordinária a distribuir, sem serem acusados de terem feito mal em suspender o evento (é a saúde, povo de Évora, é a saúde!), nem poderem dizer que a culpa é, como estaria bom de ver mais uma vez, do governo central. Uma chamada “win-win situation” onde, como nos altifalantes dos carrosséis e carrinhos de choque também se pode ouvir, quando apregoam: “As meninas não pagam! Não pagam, mas também não andam!” Enfim, se não fosse a falta que faz, para muitos, a Feira de São João não fazia falta nenhuma.
Até para a semana.

 

Cláudia Sousa Pereira

Universidade de Évora
Departamento de Linguística e Literaturas
CIDEHUS.UÉ
Centro interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

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