Serve-se fria, a Vichissoyse claro!

Segunda-feira, 04 Abril 2022
Serve-se fria, a Vichissoyse claro!

 

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente, tem cada vez mais dificuldade em se remeter apenas ao papel que a Constituição da República lhe reserva como garante da democracia e do regular funcionamento das instituições.

Se sempre lhe conhecemos a necessidade de protagonismo, de estar sempre naquilo que ele acha ser a “crista da onda”, nestas últimas semanas tem revelado uma particular urgência em se ver projectado como “o” primeiro, o mais relevante, com um conjunto de intervenções que tocam mesmo os limites constitucionais, e a que não será estranha a maioria absoluta do Partido Socialista no Parlamento.

Com a maioria absoluta do PS, Marcelo vê reduzida a sua margem de manobra e o seu peso político, especialmente visível no facto de o seu poder de veto, que usou directa e indirectamente com abundância, ter ficado diminuído. Resta-lhe a partir de agora, como grande poder, o da dissolução do parlamento, e este facto, que lhe retira o protagonismo, incomoda e desagrada profundamente a Marcelo.

E Marcelo não vai deixar passar isso em brancas nuvens. Irá, a bem ou a mal, criar factos políticos para manter o protagonismo.

Vejamos o episódio da fuga de informação para a Comunicação Social sobre a composição do Governo. Marcelo ao longo da sua vida política, fosse como deputado, como líder do PSD, como comentador político, ou até como Presidente da República, o que mais fez foi fazer notícia antecipando informação que era até da competência do Governo. Contudo, face a uma notícia sobre a composição do Governo, reagiu fortemente, tendo pura e simplesmente recusado reunir com o primeiro-ministro indigitado para deste receber pessoalmente a proposta de quem seriam os membros do Governo, que nos termos da Constituição é o Presidente quem nomeia.

No final todos ficámos a ver que a dita notícia não era, pelo menos quanto ao Ministro da Cultura, exacta. O que mostra bem como mal esteve Marcelo. Mas pior ainda esteve quando no dia seguinte, dizendo que não comentava, comentou publicamente a organização do Governo, pondo algumas reticencias quanto às responsabilidades atribuídas a Mariana Vieira da Silva, e dizendo por outras palavras que esta não seria a organização que escolheria se fosse primeiro-ministro.

Isto poderia dizer a Costa na reunião que lhe recusou mas nunca à comunicação social.
E na tomada de posse do Governo, quando se espera que seja um momento “construtor” e em que se espera que o Presidente dê crédito ao novo Governo, Marcelo saiu-se com a ameaça da bomba: “Sabe que não será politicamente fácil que esse rosto, essa cara que venceu as eleições de forma incontestável e notável possa ser substituída a meio do caminho …”

Ao esgrimir a dissolução do Parlamento caso Costa pretendesse abandonar o Governo antes do final do mandato, o Presidente tornou a fazer o contrário do que é suposto fazer e conseguiu, como era sua intenção, determinar o curso político e pôr-se no cento das atenções. Não satisfeito, insistiu no dia seguinte junto da comunicação social.

E foi notório também o facto de não ter sequer olhado para João Cravinho quando lhe apertou a mão, numa clara retaliação pelo episódio da nomeação e desnomeação do Chefe de Estado Maior da Armada.

Agora que o Programa de Governo foi apresentado, Marcelo também não se conteve e já veio fazer comentários ao conteúdo. Especialmente na área da Saúde, veio dizer que “há espaço para o entendimento com os parceiros sociais”, e este domingo na Ordem dos Médicos mandou recado dizendo que era preciso outro olhar sobre a gestão do Serviço Nacional de Saúde, o que como bem sabemos significar que tudo fará para a abertura aos grupos privados da saúde.

Não esperemos de Marcelo o que não é, nem que o correr do tempo abrande este seu frenesi ou elimine o piquinho a azedo que o acompanha.

Até para a semana!
serem “fundamentais”. há espaço para o diálogo

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