“Soam brados e olés dos nabos que não pagam nada”

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 19 Novembro 2018
“Soam brados e olés dos nabos que não pagam nada”
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Quando a ministra Graça Fonseca disse no Parlamento que a redução do IVA para a cultura não iria ser aplicada à tourada e justificou que a tourada não era uma questão de gosto mas de civilização, acrescentou “todas as políticas públicas têm na sua base valores civilizacionais. E as civilizações evoluem”. Tinha toda a razão.

Não podia, aliás, ter mais razão a ministra e foi precisamente por ter razão que as suas afirmações geraram reacções violentas por parte de alguns defensores das touradas e fazedores da opinião publicada.

Tivesse ela sustentado a posição na quebra de recitas fiscais e não teria sido tão atacada.

É que de facto estamos perante uma questão de civilização e os defensores das touradas sabem que nos últimos 10 anos o número de espectáculos taurinos e de espectadores caiu para praticamente metade e sabem que sem apoios de dinheiros públicos, quando tiverem que custear as despesas do que chamam “festa brava”, a bravura dos empresários tauromáquicos esmorece e os espectadores também.

É que a sociedade tem evoluído na lei e na prática tem-se consagrado o respeito pelo bem-estar animal e, por isso, hoje não achamos aceitável, por exemplo, ver animais a morrer sufocados nos camiões de transporte de gado, animais a morrer à fome ou alguém espancar um animal.

Lembro que não há muitas décadas seria comum ver os garotos a judiar dos gatos atirando pedras, prendendo latas aos rabos e até, alguns mais afoitos, afugentando-os a chumbos de flaubert. Hoje ninguém ficaria impávido se o seu filho ou neto fizesse semelhante coisa.

E é o facto de a sociedade ter criado esta consciência de que os animais não são coisas, que são seres sencientes e que têm que ser tratados com dignidade que tem levado a que por toda a Europa e por cá também tenham sido adoptadas inúmeras regras de bem estar animal, de proibição de maus tratos a animais e até de criminalização de alguns comportamentos.

São estes os valores civilizacionais que hoje prevalecem nas sociedades modernas e que, consequentemente, devem que estar na base das políticas, portanto da política de incentivos fiscais – ainda que expressos apenas na taxa de imposto aplicável à cultura e a espectáculos que estejam incluídos nesse grupo.

Ora, a tourada é o contrário de tudo isto. É um espectáculo, de grande violência sobre os animais, em que os touros são confinados numa arena de onde não podem sair, acossados, colocados em stress, para lhes serem espetados ferros que abrem profundas feridas e causam sofrimento. Tudo para divertimento de uma assistência e gaudio dos toureiros.

A tourada é um divertimento bárbaro que faz apelo ao que de pior existe em cada pessoa: o prazer pelo sofrimento de um ser vivo.

Estamos, portanto, a falar de um espectáculo que colide com os valores éticos actuais que estão reflectidos nas políticas públicas de bem estar animal e como tal não deverá ser incentivado com redução de taxa de IVA ou com a atribuição de apoios públicos.

Felizmente o sentimento geral face à tourada tem mudado, como comprovam os recentes resultados dos referendos feitos pelos estudantes das Universidades de Coimbra e Évora à realização de garraiadas.

Em ambos os casos os jovens rejeitaram esse espectáculo, mostrando – mesmo a quem não quer ver – que o futuro não passa pela tourada.

O que está sobre a mesa do orçamento não é sequer a proibição da tourada, é tão só a não redução de IVA. No final, veremos se no Parlamento os deputados do Partido Socialista e do Partido Comunista resistem às pressões dos lobbies taurinos ou da velha ideia de que a tourada é cultura.

Até para a semana!

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