Sobre a guerra anunciada

Quinta-feira, 17 Fevereiro 2022
Sobre a guerra anunciada

Nestes tempos de desinformação somos continuamente bombardeados com ideias simplistas, dicotomias, “os bons contra os maus”, os salvadores e os demónios. Como se não bastasse ter-se destruído o Iraque, a Síria, o que restava do Afeganistão, a Líbia e os países próximos, onde se espalharam novos senhores da guerra financiados pela intocável Arábia Saudita, continua-se a propaganda bélica. Tal como na invasão do Iraque, onde o pretexto foi o da existência de armas de destruição maciça, imediatamente desmentidas e continuamente provada a sua inexistência, hoje anunciam-se à exaustão novas verdades.

Uma delas é a anunciada invasão da Ucrânia. Marcou-se um calendário. Em novembro e dezembro dizia-se que era daí a um mês. As contas nem sempre eram bem feitas, mas não interessa, metem-se outras notícias pelo meio, depois volta-se à carga e faz-se por esquecer as certezas sobre o dia do acontecimento.

E marcam-se outras datas. Foi anunciada para dia 16 de fevereiro. E vimos as televisões focando grupos em manifestações nacionalistas na Ucrânia, mas que não passavam de umas centenas num país com mais de quarenta milhões de habitantes.

O ridículo é que a data, ou datas, da invasão russa foi anunciada por possíveis rivais ou inimigos. Ora um exército invasor não anuncia uma data certa nem publica a estratégia militar, nem pede aos outros, que têm interesses opostos, que anunciem o que vai fazer e com que meios, até ao pormenor. Ainda por cima com a Rússia que tem uma tradição de estratégias que levaram à derrota das invasões de Napoleão ou Hitler. Claro que nessas situações não contaram previamente ao inimigo o que iriam fazer.

Sabe-se, desde há muito, que o efeito de surpresa é fundamental e que se devem usar táticas para baralhar o inimigo. Ainda hoje os estrategas militares, os políticos e até os gestores de empresas, leem alguns clássicos, como Júlio César que escreveu a Guerra das Gálias, Maquiavel com o Príncipe e outros escritos, Frederico da Prússia com o Anti-Maquiavel, Napoleão com os seus comentários, ou Clausewitz sobre a guerra e a política, entre outros. Nenhum deles aconselhou que se fornecesse os planos ao outro beligerante e certamente não se dariam ao trabalho de escrever coisas em que o leitor fosse considerado alguém sem o mínimo de raciocínio, ou em linguagem mais vulgar, um parvo.

Há que distinguir propaganda de informação. Relembro que na segunda guerra mundial a BBC era escutada porque, apesar de alguma censura militar, não escondia os factos, ao contrário das rádios de outros países beligerantes que enalteciam sempre os que mandavam, até mesmo quando já estavam perdidos.

Continuamos com esperança na sociedade civil. Pode ser que seja “só fumaça, porque o povo é sereno”, como dizia o Almirante Pinheiro de Azevedo no Terreiro do Paço, noutro contexto.

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com