Sobre os migrantes

Crónica de Opinião
Sexta-feira, 14 Maio 2021
Sobre os migrantes
  • Rui Mendes

 

 

No início de 2018 participei num Seminário realizado em Madrid sobre as “Estratégias para a integração, no mercado de trabalho, dos refugiados e imigrantes na Europa”. Fui moderador numa conferência sobre o tema “Experiências e boas práticas na integração de imigrantes e refugiados” em que estiveram representantes de 4 países europeus: Espanha, Itália, Polónia e Portugal.

Na altura parecia, por declarações do representante de Portugal, que o nosso país era um exemplo no acolhimento e recepção de migrantes e na sua integração no mercado laboral.

Aliás, como é sempre o discurso dos responsáveis políticos. Somos sempre um exemplo a seguir pelos outros, estamos sempre entre os primeiros na Europa.

O pior é que a realidade é diferente do discurso político. O pior é que a nossa posição, comparativamente com os outros 26 países da UE, raramente se encontra nas posições cimeiras. Só na ilusão de alguns. Em particular daqueles que vivem alheados da realidade do país.

Os migrantes fazem falta ao país. São uma força de trabalho essencial em muitos setores da economia. Na agricultura são fundamentais.

Mas também são importantes para evitar um desequilíbrio ainda maior na balança demográfica do país.

Em Odemira, para se resolver um problema sanitário, foi destapado o problema dos migrantes.

O que se passa em Odemira deve-nos envergonhar. Infelizmente Odemira não será caso único.

O modo como tratamos aquelas pessoas não é digno. E a culpa não será dos empregadores. A culpa é, em primeiro lugar, dos poderes públicos.

As políticas públicas têm que ser construídas para dar resposta aos problemas dos territórios.

As alterações legislativas protagonizadas, em sede parlamentar, pelos partidos que suportam os Governos de António Costa em nada ajudaram a resolver os problemas dos migrantes. Pelo contrário. Facilitaram. E assim não só aumentou o número de migrantes, alguns focados apenas em conseguir uma “nacionalidade europeia”, como aumentou o problema dos migrantes em Portugal.

Abriram as portas de uma maneira que o país não tinha capacidade para os acolher.

O resultado está à vista.

Receber migrantes sim, mas o país tem que ter a capacidade de os acolher e os integrar.

Provavelmente existirá uma precariedade social bastante maior do que a precariedade laboral, pese embora se queira acima de tudo mostrar casos de precariedade laboral.

No meio de toda esta balbúrdia, o que o Estado faz é criar ainda mais confusão. O foco deveria estar em tratar condignamente estas pessoas.

As preocupações do Estado são outras. É tentar sair o menos chamuscado possível de um problema que era sobejamente conhecido dos poderes públicos.

Cada vez que o Ministério da Administração Interna é chamado a intervir já sabemos que vamos ter desastre. Em Odemira não foi diferente.

Realojar migrantes a meio da noite para “tapar” o problema não é próprio de um Estado democrático. Os migrantes foram assim utilizados porque não tem voz. Quis-se esconder o que se ia passar a coberto da noite.

É o Estado que se impõe pela força e não pela razão. Em instaurar inquéritos para ganhar tempo e não se ter que justificar. É este o comportamento padrão do MAI.

Certamente que não será esta a sociedade que queremos construir, mas é aquela que estamos a construir.

Pelo menos que se aprenda alguma coisa com o que se passou.

Ainda assim, importará saber quantas mais Odemiras existem em Portugal.

 

Até para a semana

 

Rui Mendes

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