Soluções precisam-se

Quinta-feira, 24 Março 2022
Soluções precisam-se

Para além do imediatismo, da informação/desinformação ou da moral, há problemas a resolver. O que adianta ter discursos inflamados sem pensar em soluções?

Está também na mão da sociedade civil e da opinião pública fazer tudo para que a Ucrânia não se torne num estado pária, como recentemente o Afeganistão, a Síria ou a Líbia.

Creio que haveria soluções, se todos os interessados quisessem colaborar, respeitando a Carta das Nações Unidas e o direito dos povos à autodeterminação, incluindo as minorias, respeitando os direitos dos cidadãos. Poderia constituir-se um estado federal. Por exemplo, a Confederação Helvética, vulgo Suíça, com cantões autónomos, onde uns falam alemão, outros francês, outros italiano ou romanche, com católicos, calvinistas e luteranos. Ou a Bélgica, onde apesar de haver diferenças nítidas e acirradas entre flamengos e valões, conseguem conviver sem tiros.

A ONU tem que ter um papel mais interveniente. António Guterres não foi posto lá só para pregar princípios, mas para resolver problemas. Há que continuar os canais diplomáticos. E espero que as televisões não continuem com o mesmo discurso, em que se diz que não vale a pena dialogar. Há que ter também cuidado com a banalização das imagens, o que produz cansaço.

A solução não passa por aumentar o número e a qualidade das armas, fornecidas por aqueles que estão à espera que outros sejam carne de canhão. Já tivemos experiências demasiado tristes com países rearmados.

Vemos constantemente imagens de bombardeamentos, que existem. Mas não tem havido cuidado com a seleção da informação e sobretudo da verificação dos factos. Tanto faz estar lá um jornalista que conhece o terreno, como um repórter que desconhece onde está, como imagens de telemóveis de um qualquer. Faz-se censura proibindo informação de outros lados, como se os espetadores devessem ser infantilizados pelo Grande Irmão e não tivessem direito a ser críticos e informados.

Avançam-se números. Há dias eram 12000 soldados russos mortos, desmentidos por outros. Hospitais e creches, civis que perderam vidas e casas. Na guerra há tudo isso, não há desculpa para quem faz a guerra! Lembremo-nos que na segunda invasão do Iraque (sem mandato das Nações Unidas), diziam-nos que eram ataques cirúrgicos, só víamos uma espécie de relâmpagos em direto e depois mandavam-nos dormir. Na invasão da Líbia víamos uns grupos com umas pick-up, a disparar e a voltar atrás ou em reviravoltas. Hoje sabe-se que no Iraque morreram mais de 500000 pessoas e que na Líbia a maior parte dos combates foram ganhos pela aviação estrangeira ou mercenários.

Toda a gente sabe agora qual é a estratégia do Kremlin. Mas o que é que sabe da estratégia do exército ucraniano, do célebre regimento Azov, dos voluntários que para lá têm ido, de outros que estão armados sem experiência militar? Acertam só nos soldados? Não há nenhum avião a embater num prédio, não há nenhum míssil a rebentar noutro lado, não há nenhuma bala perdida?

Veremos, e espero que o problema se resolva, o que vai acontecer com os refugiados nos próximos tempos. Há países que não vão aguentar muitos meses, como a Moldávia, o país mais pobre da Europa, mas outros como os Estados Unidos, parte interessada, nada fizeram para os receber. Alguns, como a Polónia, também sabem o que é não ser desejado noutros países, como o Reino Unido, como em França e noutros, em que já parece normal ser anti-imigrante. E quando a guerra acabar, num país destruído, virão mais. Virão também os homens que não deixaram sair.

Vamos ver no que é dão as sanções. Há países um pouco calados porque não prescindem do gás da Rússia, principalmente no atual Inverno, mas são muito diligentes a proibir músicos e atletas.

Talvez valesse a pena ver as votações na ONU, para concluir que a situação não é assim tão clara. Trinta e cinco países abstiveram-se, representando mais de metade da população do mundo, alguns com uma importância mundial ou regional, como a União Indiana, a China, a África do Sul… e mesmo de língua oficial portuguesa, como Angola e Moçambique.

Há que resolver os problemas. Cada dia que passa é mais um passo para o caos ou para a reorganização das superpotências com os seus espaços vitais, com os seus aliados ou dependentes.

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