Sonhar, ainda que rodeados de pesadelos

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 01 Março 2018
Sonhar, ainda que rodeados de pesadelos
  • Eduardo Luciano

 

 

Nas nossas vidas, em todas as vidas, cruzamo-nos com momentos deprimentes que nos colocam perante a dúvida de valer, ou não, a pena preocuparmo-nos com a marcha do mundo ou da nossa travessa.

Depois, há outros momentos em que nos fazem acreditar que é possível e vale pena apaixonarmo-nos pelo que fazemos e pelo que outros fazem, acreditando que é possível conseguir pequenas mudanças que são enormes para aqueles que delas beneficiam.

No domingo passou pelo Teatro Garcia de Resende o projecto Orquestra Geração. Trata-se de um projecto inspirado na metodologia “El Sistema”, originária da Venezuela, e que tem como objectivo o combate ao abandono escolar e a ocupação de tempos livres em territórios ocupados por elevados índices de criminalidade e onde o tráfico e consumo de drogas é uma realidade sempre presente.

O projecto funciona em 20 escolas básicas das regiões de Lisboa e Coimbra, envolvendo cerca de oito dezenas de professores e de 1170 crianças e adolescentes dos 6 aos 18 anos.

O concerto foi emocionante desde o primeiro minuto, com os 120 músicos entregues à tarefa de nos fazerem sonhar.

Começaram como acabaram, com Rossini, e nós não queríamos que fossem embora. Sentimos que, mais do que um concerto, estávamos a assistir à representação de uma espécie de milagre protagonizado por aqueles jovens, dirigidos por um jovem maestro venezuelano.

Não havia estrelas nem tiques de vedetismo, nem mesmo quando uma jovem se atirou a uma canção da Nina Simone e o público a obrigou a bisar e vou agraciada com um ramo de flores.

Aqueles rapazes e raparigas mostraram que é possível sonhar, mesmo que se esteja rodeado do pesadelo mais tenebroso, e que as impossibilidades são apenas barreiras para serem ultrapassadas com a tenacidade e o engenho de quem não acredita que se possa nascer derrotado.

Rossini, Händel, Bizet, Sibelius, Brahms e quejandos estiveram à altura da Orquestra Geração.

Só no final do concerto percebi de que falava o responsável do projecto, quando apresentou o espectáculo, “não tocamos instrumentos, tocamos pessoas”.

Depois do que assisti no Teatro, algumas cenas caricatas a que assisto todos os dias são apenas pormenores que não merecem um grão de preocupação.

Até para a semana

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