Superintensivas à porta: não obrigada!

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 10 Fevereiro 2020
Superintensivas à porta: não obrigada!
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Abrir a janela ou vir ao quintal respirar o ar fresco, são gestos simples do quotidiano para muitos de nós, mas podem ter os dias contados para os moradores de Veiros, no concelho de Estremoz.

Passo a explicar. Se nada for feito, muitos dos habitantes de Veiros terão em breve literalmente à sua porta um olival intensivo.

Tudo começou com a água. Com a construção da barragem de Veiros, em meados de 2015, uma aspiração antiga da terra e um investimento público de 25 milhões de Euros, a água tornou-se acessível à agricultura.

Mas ao contrário do que seria uma vantagem para a localidade, com a água vieram os projectos de agricultura intensiva e superintensiva, e com eles um pesadelo para muitos dos que lá vivem.

Junto à Eira da Pedra Alçada, estão a decorrer os trabalhos para instalação de um olival intensivo ou superintensivo, que chega às casas das pessoas que lá vivem. Cerca de 10 metros, nalguns casos 15, separam as habitações ali existentes dos terrenos que estão já a ser preparados.

As terras estão a ser profundamente mobilizadas e vêem-se grandes montes de terra retirada nas operações de aplanamento dos terrenos e despedrega que estão a ser levadas a cabo. Uma destruição do solo, a que as entidades publicas também vão fechando os olhos.

A plantação essa vai chegar junto dos muros dos quintais e a população está preocupada. E pergunta-se: Que lhes vai acontecer? Como poderão continuar a comer das suas hortas, a respirar um ar cheio de químicos das pulverizações, como estará a água dos poços e furos após a infiltração dos adubos e fitofármacos?

Estas são preocupações reais que me foram transmitidas há dias, quando fui a Veiros, a convite de quem lá vive, para ver directamente o que custa a acreditar esteja a ser feito, perante a indiferença e até cumplicidade das entidades públicas. Não, não era exagero, o olival intensivo vai chegar a poucos metros das casas.

E de facto as preocupações dos moradores têm toda a razão de ser. Mesmo nos casos em que a produção é desenvolvida em modo integrado, ou seja, seguindo regras menos danosas para o ambiente, a instalação de um olival intensivo implica sempre a aplicação adubos, de fungicidas e pesticidas e a pulverizações regulares, sujeitando a população a respirar o ar contaminado com estes produtos.

Muitos destes produtos são glifosatos, muito perigosos para a saúde humana e vão ser aplicados junto às habitações.

Também a utilização de fertilizantes e pesticidas vai poluir as águas superficiais e subterrâneas, águas de poços que muita desta população utiliza.

Aliás, não deixa de ser de salientar que nenhuma das precauções que se exige à aplicação de produtos desta natureza em zonas urbanas se exigirá aqui, apesar de as casas estarem a escassos 10 ou 15 metros.

Alguns moradores mais despertos para os perigos de ter à porta de casa um olival intensivo estão a questionar as entidades públicas, mas as respostas ou não chegam ou quando chegam pouco adiantam, como foi o caso da Junta de Freguesia, que se limitou a aceitar e transmitir o que os promotores do olival lhe disseram concluindo que não haverá prejuízo, incómodo ou perigo para os moradores.

Mas o que está em causa já não é apenas o impacto ambiental destas culturas superintensivas. É no imediato a saúde pública que está em causa e nenhum argumento tornará admissível que se instalem culturas intensivas a 10 ou 20 metros das habitações, seja em Veiros seja noutro qualquer local.

Como não é admissível que os poderes públicos fechem os olhos e sejam até coniventes com situações destas, omitindo a sua obrigação primeira que é a protecção das populações.

Os Municípios nos seus planos directores de ordenamento e o Parlamento, através da lei, têm de pôr travão a que o lucro de uns poucos seja, de facto, um passivo de todos nós.

Até para a semana!

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