Teletrabalho, para que lado caem as vantagens

Quinta-feira, 01 Abril 2021
Teletrabalho, para que lado caem as vantagens

 

 

De repente algo que era excepcional passou a ser para muitos trabalhadores a única forma de continuar a produzir sem deslocações às empresas e serviços.

O que parecia ser uma modernice que apenas os “maluquinhos da informática” e outros que tais usavam, estendeu-se às mais diversas actividades desde serviços de apoio administrativo ao ensino ou às consultas médicas.

O teletrabalho, de forma residual de prestação de trabalho passou a ser obrigatório para todas as actividades que o permitam, por causa da imposição de regras de confinamento com o objectivo de evitar o alastrar de contágios virais.

Num primeiro momento apenas eram visíveis as vantagens na utilização do teletrabalho. Não há perda de tempo em deslocações, o trabalhador está instalado num ambiente que lhe é mais confortável e familiar, a produtividade aumenta, podemos ouvir a música que quisermos enquanto trabalhamos, perante uma necessidade extrema não temos que esperar à porta da casa de banho… enfim um mundo de aparentes vantagens.

Depois começaram a surgir pequenas questões que faziam levantar o sobrolho a quem estava ade pantufas a trabalhar. A conta da água e da luz teve um incremento significativo, o equipamento informático utilizado era pessoal, a ligação às redes de comunicação era suportada pelo trabalhador, o chefe começou a achar que teletrabalho era estar vinte e quatro horas disponível para responder a correio electrónico, o telefone de contacto deixou desse ser o que estava habitualmente em cima da secretária e passou a ser o que o trabalhador transporta no bolso, o tempo de trabalho e de lazer deixou de estar delimitado, a sala ou o quarto tiveram que se adaptar a outras funcionalidades e há até casos em que o trabalhador carrega um pesado sentimento de culpa por ir ao supermercado às sete da tarde não vá ser preciso no seu local de trabalho, ou seja a sua casa.

Bem sei que estou a caricaturar a situação e não desprezando as vantagens que esta opção comporta é necessário e urgente regulamentar de forma clara esta opção de prestar o trabalho a partir de casa.

Desde logo deve ser uma opção e não uma obrigatoriedade. Depois é preciso garantir que os custos de funcionamento não sejam transferidos do empregador para o trabalhador o que exige um acréscimo de remuneração que faça face às despesas de electricidade, água e comunicações. A empresa deverá garantir as ferramentas de trabalho e as condições para o seu exercício (estamos a falar de meios informáticos, cadeira, secretária..).

É preciso garantir que a entidade patronal respeite o horário de trabalho que deverá ser aquele que o trabalhador praticaria em exercício presencial e que qualquer solicitação para prestar trabalho fora desse horário seja feita por escrito e, obviamente, remunerada.

É preciso garantir o direito a recusar o exercício do teletrabalho sempre que o trabalhador entenda que questões como a sua privacidade estão postas em causa.

Se não for regulado o teletrabalho é de facto muito vantajoso, mas as vantagens caem sempre para o mesmo lado e já não basta a incompreensão dos companheiros de trabalho que pelas suas funções não podem optar por este regime, como ainda verem agravadas situações de inadmissível exploração.

A Assembleia da República irá um dia destes discutir uma proposta de projecto de lei do PCP que visa exactamente a regulação do teletrabalho.

Que me desculpem os mais exigentes, mas a questão mais importante de todas é que o teletrabalho possa ser uma opção e não uma obrigatoriedade. É que conheço muita gente que no início achava o teletrabalho a oitava maravilha do mundo e que hoje morre de saudades das discussões acesas com o colega da secretária em frente.

Até para a semana

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com