Tempo de julgamentos sumários

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 24 Outubro 2019
Tempo de julgamentos sumários
  • Eduardo Luciano

 

 

Que tempos são estes em que um homem pode ser criticado por reagir de forma indignada perante alguém que o ofende e o provoca com uma mentira repetida, apenas porque é “um político”, tempos em que se julga na praça pública sem direito a defesa, perante milhões de pessoas, uma atitude, um erro, um crime, um desleixo, apenas porque vende tempo de publicidade e mobiliza reacções primárias de ódio confundidas com opinião.

São tempos em que transparência e o direito à devassa da vida privada são sinónimos e exigidos como se de um princípio ético se tratasse, constituindo uma nova religião onde uma qualquer afirmação não tem a possibilidade de ser desmentida porque depois de colocada a circular torna-se indesmentível.

A linguagem empobrece drasticamente e a confusão de conceitos resulta na inexistência de factores diferenciadores o que leva à rotulagem fácil e muitas vezes sem sentido.

A maioria exprime-se por palavras-chave que vão ocupando todo o discurso num efeito mancha de óleo. Corrupção, ambiente, alterações climáticas, vergonha, segurança, ciganos, refugiados, criminosos, zona de conforto, evento, Catalunha, Venezuela, redes sociais, passado glorioso, são as muletas de quase todos os discursos que começam e acabam na repetição de palavras que se vão despindo de conteúdo à medida que vão sendo transmitidas, até não significarem nada senão uma raiva surda contra a falta de esperança de quem as exprime.

Qualquer um que leia livro por mês é acusado de pertencer às “elites” e querer complicar as coisas apenas para que o “povo” não lhes tenha acesso.

Mas se for um futebolista ou uma apresentadora de televisão principescamente paga, já não pertence a elite nenhuma mesmo que exiba bens de consumo inacessíveis à maioria.

Tudo fica a preto e branco e assim as escolhas são mais fáceis. Se, a propósito da Catalunha, dizes defender o direito dos povos à autodeterminação acusam-te de defenderes a independência e de nade te vale argumentares que um português defender a independência da Catalunha ou o seu contrário, é contraditório com a defesa do direito à autodeterminação.

Estás zangado com as pessoas dirão alguns. Outros dirão que estou a defender que só “as elites” têm direito a ter opinião. Mais uma vez o preto e o branco, a irracionalidade de escolhas primárias que levam ao ressurgimento de comportamentos que julgávamos enterrados para sempre.

Este caminho paulatinamente prosseguido começa nas escolas, com programas curriculares que parecem inimigos da construção de pensamento crítico para caírem no utilitarismo pragmático do fabrico de mão-de-obra futura.

O humanismo morreu, dirão os mais pessimistas. Não sou desses. Sou dos que afirmam que a partir de qualquer centelha de humanidade é possível a esperança.

Até pode parecer uma luta inglória, mas estamos condenados a travá-la.

Foi só um desabafo. Na próxima crónica vou tentar falar do número de membros do governo, do médico e do professor condenados sem julgamento, das golas, do número de motoristas ou da orientação sexual de cada ministro.

Até para a semana

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