Tempos difíceis

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 23 Março 2020
Tempos difíceis
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Nestes tempos difíceis que atravessamos, os desafios a que tem responsabilidades colectivas são enormes, a começar pelo governo central e não esquecendo os governos locais, as autarquias.

É nestes momentos que se distingue quem mantém a capacidade para analisar as situações e encontrar – inventar muitas vezes – respostas concretas ou seja quem tem capacidade para governar.

Temos visto muitas autarquias e autarcas a fazer frente a esta pandemia, adoptando medidas autonomamente ou complementando a capacidade de resposta das autoridades nacionais de saúde.

Em Évora temos estado até agora protegidos, com taxas de incidência mais baixas que no resto país. Mas todos sabemos que não vai continuar assim, que a progressão do Covid19 vai fazer-se sentir por cá.

Enquanto cidadãos temos cumprido maioritariamente a nossa parte, como se vê pelas ruas vazias. E é imperativo que assim continue, que limitemos as saídas e os contactos sociais o mais possível.

Mas todos sabemos que o isolamento físico prolongado tem efeitos psicológicos negativos. Se ao confinamento social somarmos o medo do contágio, a angústia quanto ao futuro dos empregos e dos salários e das pensões, o stress aumenta brutalmente.

O confinamento social tenderá também a potenciar a agressividade de algumas pessoas, o que faz prever um aumento dos casos de violência doméstica e de género.

Na China, o número de denúncias por violência triplicou durante a quarentena do Covid19, nos outros países os números poderão ser diferentes mas a realidade é a mesma.

O confinamento social não é seguramente desculpa para a violência doméstica, mas sabendo que os agressores são usualmente pessoas de muito baixa tolerância à frustração, os especialistas antevêem o aumento destas situações de violência sobre, principalmente, as mulheres e também as crianças, que com o encerramento das escolas terão também uma maior permanência forçada em casa.

Sendo já vitimas especialmente frágeis, a actual situação de quarentena e confinamento durante dias consecutivos, vai obriga as vitimas de violência doméstica conviver durante períodos longos e quase exclusivamente com os agressores. Sem alternativas, ficam numa situação desesperadamente critica.

O que nos convoca a todos, sobretudo os que estamos mais próximos, para uma especial atenção e responsabilidade nestes próximos tempos.

Enquanto cidadãos e cidadãs devemos ter um papel mais activo. Podemos e devemos estar mais atentos aos sinais de estar a ser vítima de violência que apresenta aquela pessoa, aquele casal ou as suas crianças e não ter acanhamento em “meter a colher”; oferecer apoio e auxilio e não deixar de denunciar todos os casos de violência doméstica, chamando a policias, sempre que nos apercebamos de que uma agressão ou outra qualquer forma de violência está a acontecer.

Do Governo esperamos o reforço das medidas de apoio social e psicológico, bem como de apoio às organizações não governamentais que trabalham nesta área e cuja intervenção é essencial.

Das nossas autarquias esperamos que sejam proactivas nesta fase e no combate à violência doméstica e de género que afecta principalmente mulheres e crianças no concelho.

Em especial da Câmara Municipal de Évora, cuja revisão agora feita do programa de contingência, medidas de prevenção e contenção ao COVID19 não contempla medidas relativamente à violência doméstica, esperamos o empenhamento dos serviços sociais para que, em colaboração com a Segurança Social, as organizações que intervêm na área e a PSP e GNR, garantam visitas às famílias sinalizadas, contactos não apenas telefónicos mas também presenciais regulares, soluções no parque habitacional público para as que tenham que sair de casa, e que a autarquia se empenhe numa campanha de sensibilização e informação junto dos e das munícipes.

Fiquem bem, fiquem em casa se puderem e até para a semana.

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