Tiranos e tiranetes

Nota à la Minuta
Quarta-feira, 26 Outubro 2022
Tiranos e tiranetes
  • Alberto Magalhães

Numa cena nunca antes vista, Hu Jintao, ex-presidente da China, é arrastado por seguranças para fora do XX Congresso do Partido Comunista Chinês, acompanhado pela atitude de total desprezo do, agora querido e incontestado, líder Xi Jinping. A encenação tenta mostrar o destino dos que se atreverem a opor-se ao poder absoluto de Xi. Mais significativa e preocupante, a transmissão para todo o mundo do “evento”, sinal de que a sua entronização é assumida sem rodeios, como assumidos são os métodos, digamos, firmes de lidar com dissidentes. Os homens de Xi ocupam todos os postos chave no Partido, a linha dura e de um nacionalista exacerbado ocupa o poder na China e isso não augura nada de bom. Sendo certo que os problemas económico-financeiros se têm vindo a acumular no país, é de temer que Xi Jinping, mais ano menos ano, sucumba à tentação de arranjar um inimigo externo, que amorteça qualquer veleidade de contestação interna.

Como dizia premonitoriamente Vasco Pulido Valente, ‘o mundo está perigoso’. Não só por causa da ascensão de Xi Jinping. Com uma guerra tão perto de nós, somos confrontados com autênticas monstruosidades que julgávamos estarem ultrapassadas, pelo menos na Europa. Impressionou-me, por isso, ver e ouvir um apresentador do canal russo Russia Today, afogueado, exaltado, pedir às tropas russas que queimassem crianças ucranianas ou as afogassem nos rios. Alguém na estação teve a coragem de o suspender e ele veio a público desculpar-se: que se entusiasmou. “Estás no ar, deixas-te levar”, foi o argumento da besta. Há tiranos e tiranetes, uns e outros podem ser autênticos monstros.

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