Tragédia na tragédia

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 22 Junho 2017
Tragédia na tragédia
  • Eduardo Luciano

 

 

É difícil não dizer nada sobre o incêndio que assolou parte significativa do distrito de Leiria sem usar os adjectivos que vimos escorrer pelos écrans de televisão e pelos monitores dos computadores.

De repente todo o país, em particular o país sentado, comoveu-se, indignou-se e tornou-se especialista em combate a incêndios, ordenamento do território, plataformas de comunicação, políticas florestais e, obviamente, em métodos avançados de fazer justiça ou prevenir incêndios, misturando as duas artes quando se apela a que sejam os reclusos ou os beneficiários do rendimento mínimo a limpar as matas.

No meio de tanto especialista do “se fosse eu a mandar”, as vítimas mortais e as que sobreviveram perdendo tudo, excepto a vida, funcionaram para estes “cientistas” apenas como o deflagrador da genialidade que esconderam durante a sua vida.

Claro que devemos procurar responsabilidades, obviamente que devemos ir ao passado para perceber de quem foram as decisões políticas que permitiram o abandono das florestas, o esvaziar de vida do interior, o centralismo exacerbado e a litoralização do país.

Também me parece óbvio que devamos procurar saber quem ao longo dos tempos fez propostas de sentido contrário, quem alertou para as consequências de políticas que ignoram a necessidade de coesão territorial.

Tudo isso é natural e faz sentido. O que não faz sentido é que se utilizem as vítimas como legendas de erros e opções políticas erradas. O que não faz sentido é que enquanto alguns choram a perda da vida dos seus mais próximos, os abutres que se alimentam da desgraça alheia se orgulhem de terem vendido mais jornais do que a concorrência, na cobertura do drama.

Nas redes ditas sociais, as caixas de comentários e as publicações reflectem as razões pelas quais o telelixo tem o sucesso comercial que afirma ter. Existem para alimentar a chusma de “indignados”, de gente que usa a palavra “vergonha” sem saber o que significa, que acusa tudo e todos de tudo, que se afirmam como o único cidadão honesto à face da terra, que têm resposta para tudo embora nunca tenham respondido a nada.

Dizem-me que poderá ser uma forma de sublimar a dor solidária que sentem e que isso os ajuda a sentirem-se melhor perante as imagens de morte e destruição que as televisões insistem em mostrar.

Talvez seja. Mas se for, então trata-se de um acto de autocomiseração e terá muito pouco do altruísmo que pretendem demonstrar.

Curiosamente o comportamento das vítimas que sobreviveram e que sofrem na pele com o fim de vidas de familiares, vizinhos e amigos, pautou-se por uma quase serenidade nos relatos que fui ouvindo.

Para estes vai a minha solidariedade. São eles os que importam. Não os que a quilómetros de distância usam as imagens que provocaram a sua dor, para se “indignarem” e com isso poderem ficar cheios de razão por alguns dias.

Já agora, e de passagem, deixem de atirar pedras a jornalistas que inventam quedas de avião, que quase entrevistam cadáveres e que fazem intervenções que rivalizam com os melhores relatadores de jogos de futebol. Sabem porque é que se comportam assim? Porque vocês, os “puros”, estão nesse preciso momento a olhar para eles.

Até para a semana

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