Tragédias e desgraças

Crónica de Opinião
Terça-feira, 14 Fevereiro 2023
Tragédias e desgraças
  • Cláudia Sousa Pereira
Quando acontecem as tragédias a que assistimos quase em directo pelas televisões, tendemos a relativizar os nossos males menores. (Com excepção, claro, de quem se julga o centro do mundo e o seu mal é o pior de todos; ou então quem está só a tentar tornar-se a imprescindível carpideira de serviço.) Somos até capazes de hierarquizar essas tragédias: as novas, as instaladas, as eternas, as episódicas. Não sei se é um exercício de análise inconsciente feito com frieza, ou demasiado a quente, mas quase sempre somos conduzidos por torrenciais opinadores. Nesse exercício, tendo a divida-las em tragédias e desgraças, em regime de sucessão, sem aprofundar muito os critérios porque, no fundo e no dicionário, até são sinónimos. Começam tragédia, acabam desgraça, originam tragédias, perpetuam desgraças: um encadeamento quase indistinto em loop.
Na última semana, várias tragédias se juntaram à instalada desgraça da guerra da invasão da Ucrânia, de que até tivemos sobretudo notícias diplomáticas. Dá-se, inclusivamente, o ridículo dos outros habituais comentários, sobre a destruição, se alongarem em detalhes tácticos sobre lugares que, parece, devíamos saber tão bem onde são, como se falassem de Coimbra ou de Faro. Que efeitos ou utilidade terá esta espécie de normalização? Não encontrei ainda resposta, nem vejo nela qualquer efeito que ou me “desindigne”, ou me desespere…
A nova tragédia do terramoto na Síria e na Turquia torna ainda mais estúpida a da guerra, pois a natureza encarrega-se de nos lembrar de que não precisamos de as procurar, às tragédias, elas vêm ter connosco. A guerra passa assim a desgraça, instala-se no quotidiano. Como se instalará no cenário de devastação de que só temos uma pálida amostra nas imagens que se instalam nos nossos dias.
A desgraça do racismo e da xenofobia convive, global e intimamente, com quem menos suspeitamos (ou talvez até desconfiemos) e produz tragédias eternas, também íntimas, mas que dizem respeito, porque têm impacto, na vida em comum da sociedade. O incêndio na Mouraria e o espancamento em Olhão foram tragédias episódicas, de raiz comum eterna, e réplicas de epicentros polvilhados por esse mundo fora.
Importa ler com atenção as subsequentes reacções de quem dá o nome, a cara e a ocupação, com responsabilidades políticas em que não se perpetuem as tragédias evitáveis. É que foram bem diferentes e reveladoras não só, eventualmente, de princípios e definições de carácter pelos quais esses líderes se regem, mas, pelo menos, de uma incapacidade de propor as soluções não ridículas e, por isso, populistas. Mas não nos iludamos, porque só varrer a tragédia para debaixo do tapete também não vai acabar com a desgraça.
Até para a semana.

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