Tu, que nunca trabalhaste…

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 22 Fevereiro 2018
Tu, que nunca trabalhaste…
  • Eduardo Luciano

 

 

Era uma vez um homem que tinha opiniões. Toda a sua vida foi dirigente de qualquer coisa e habituou-se a dizer banalidades e boçalidades de cada vez que lhe colocavam um microfone à frente da boca.

Durante os vinte anos que esteve à frente da CIP, foi coleccionando afirmações que se poderiam colocar na boca de um qualquer economista ou sociólogo de mesa de café, todas elas no mesmo sentido.

Para esta figura de herdeiro de posição económica relevante, os trabalhadores sempre foram meros recursos para a construção da riqueza de um certo empreendedorismo de boca cheia de saber como explorar mais e melhor o trabalho alheio.

Agora, à frente de um denominado “Forum para a competitividade”, continua na senda do disparate que a comunicação paga pelos seus pares transforma em ideias para uma suposta reforma que nos transformará no supra sumo da competitividade.

Afirmou, confundindo frontalidade e desassombro com boçalidade, que os portugueses não queriam trabalhar, atribuindo a essa suposta característica identitária dos seus compatriotas o deficit de disponibilidade de mão-de-obra para alguns sectores da economia.

A verdade é que, de facto, em todas as actividades económicas encontramos portugueses a trabalhar e outros portugueses que sem nunca terem trabalhado beneficiam do produto do trabalho alheio.

Quando vamos a um supermercado de uma qualquer cadeia de distribuição, são portugueses que fazem a reposição dos produtos, atendem-nos no talho ou na charcutaria e fazem as contas na caixa. Nunca encontraremos nenhum accionista desses grupos económicos a alinhar os pacotes de esparguete na prateleira.

Os automóveis fabricados em Portugal são produzidos maioritariamente por portugueses e não há memória de alguém ter visto um accionista na linha de montagem excepto em visita para registo de comunicação.

Quando ficamos alojados numa unidade hoteleira de um dos grandes grupos do sector, não costumamos ser recebidos pelos donos do grupo mas por trabalhadores mal pagos para servirem na recepção.

Poderíamos percorrer todas as actividades económicas que em todas elas encontraríamos a mesma realidade que desmente a afirmação bolsada pelo homem.

Se os portugueses não quisessem trabalhar teríamos que ficar sujeitos a que toda a produção ficasse nas mãos de gente como o dirigente do “Forum para a competitividade” e como nunca ninguém os viu a trabalhar estávamos tramados.

António Aleixo, que não conheceu Ferraz da Costa, dedicou-lhe uma quadra. Sim é possível dedicar uma quadra a alguém sem se conhecer, quando esse alguém é tão velho como a exploração do trabalho.

Disse o poeta…

Ainda não reparaste

Que és tal qual um cão na palha?

Tu, que nunca trabalhaste,

Censuras quem não trabalha!

Até para a semana

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