Um ano estranho e uma animal na moda

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 17 Dezembro 2020
Um ano estranho e uma animal na moda
  • Eduardo Luciano

 

 

Outra vez a última crónica do ano. Como são muitos anos corri muitas vezes o risco de me repetir, retirando o significado à palavra balanço.

Desta vez ao olhar para os últimos 11 meses não consigo ver mais nada que não seja medo, pandemia, desaparecimento de algumas pessoas que julgávamos imortais, empobrecimento de todas facetas da vida humana, crescimento de formas de pensar que julgávamos erradicadas e, não sei se já vos dito, medo.

Dito assim até parece que nada de positivo existiu, mas não é verdade. Houve coragem, avanços científicos incríveis, resistência ao medo, gente que não se deixou enredar na pobreza de linguagens redutoras e que continuou a dizer o que pensa da única forma possível: com palavras ditas não para caberem na maioria dos ouvidos mas para obrigarem os ouvidos a aprenderem palavras que lá não cabiam.

Houve corrente pestilenta a crescer e a inundar a nova ágora, frequentada por quem acha que a praça pública é o canto desconfortável do seu sofá. Mas também houve contra corrente no conforto das ruas e praças, por parte dos que nunca abandonam a luta por uma vida melhor para todos.

Houve tentativas de confinar a democracia, a política, a cidadania. E houve quem demonstrasse que tais coisas não se confinavam e, sem cálculos políticos imediatos, não cedeu um milímetro em defesa dessas conquistas.

Este foi também o ano da afirmação de uma espécie animal pouco recomendável: o abutre.

Ave de hábitos necrófagos, o abutre assumiu este ano uma preponderância enorme no contexto social que vivemos.

Farejou tudo o que lhe pareceu podre atirou-se às presas que julga indefesas para se banquetear já não com restos mortais mas com a atenção de outras aves que, vá lá saber-se porquê, apreciam muito esse voo picado sobre o que lhes parece putrefacto. Se falassem diriam dos abutres qualquer coisa como “é feio, alimenta-se de cadáveres, cheira mal, mas diz umas verdades”. Claro que nem se preocupam em saber se são mesmo verdades ou só aquilo que lhes parece ser verdade.

A evolução dos abutres levou-os do estado de “especialistas” em futebol, economia, justiça (adoram ser especialistas de justiça), a uma especialização muito mais exigente. Este foi o ano do abutre epidemiologista. Convenhamos que nem nos cenários mais optimistas Darwin imaginou tal coisa.

Brincadeiras à parte, não tivesse este ano existido uma pandemia com seu rosário de mortos, doentes, desempregados, idosos isolados, aumento da violência em contexto familiar, gente atirada para a miséria e crescimento das desigualdades sociais e seria um ano normal.

Nem sei bem que mensagem vos deixar para o que aí vem.

Votos de um Natal tranquilo, de Ano Novo cheio de coragem para enfrentar tudo de novo se necessário for e que nunca se finjam de mortos, porque os abutres não perdoam.

Até para a semana

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