Um dia como qualquer outro

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 10 Novembro 2016
Um dia como qualquer outro
  • Eduardo Luciano

 

Seria inevitável falar do dia ontem, pela agitação mediática que provocou e pelas manifestações de indignação que os diversos comentadores, profissionais ou amadores, foram deixando ficar por aqui e por ali.

A primeira observação que se me oferece é que não percebo os motivos de tanta agitação. Não é a primeira vez que os americanos, pelo seu estranho processo eleitoral, elegem uma figura que não lembra ao diabo, que substitui o discurso político pela frase curta que toda gente é capaz de produzir, e que por isso tem garantida a adesão dos menos disponíveis para essa coisa da reflexão.

Os mais novos e os mais distraídos já não se lembram da primeira eleição de um actor medíocre de filmes da série B e do que se disse acerca da impossibilidade dos americanos elegerem tal figura.

Esqueceram-se também que os mesmos eleitores colocaram na Casa Branca não um, mas dois elementos da mesma família (pai e filho) que não primavam propriamente pelo brilhantismo intelectual e que deram os primeiros passos, decisivos, para mergulhar o mundo nas frentes de guerra que hoje estão abertas e lançaram as bases do terrorismo à escala mundial.

Mas mesmo aqueles que pareciam figuras menos sinistras não fizerem mais do que continuar, por outros meios e usando outros discursos, a mesma política. É da natureza da coisa.

É bem possível que a figura eleita ontem venha carregar de novos perigos um mundo já de si posto a ferro e fogo pela política externa dos seus antecessores, mas a eleição da sua oponente traria exactamente os mesmos perigos.

Percebo e partilho das preocupações, mas não é nada que não seja comum aos diversos ocupantes da Casa Branca. Lembremos o simpático e elegante actual ocupante que, apesar do seu inegável sentido de humor, fomentou durante os seus mandatos múltiplas acções de ingerência externa que acabaram em guerras generalizadas e na desestabilização de várias regiões do mundo.

Uma guerra promovida por um lunático, misógino, racista e mais outros epítetos que queiramos somar, tem as mesmas consequências que uma guerra promovida por alguém a quem aparentemente não se lhe pode atribuir a mesma carga negativa.

A eleição de Trump é, de facto, algo de extraordinariamente negativo para os norte-americanos e para o mundo, mas não é a abertura da caixa de Pandora. A muito afamada caixa já foi aberta há muito tempo pelo agudizar crescente das crises sistémicas do capitalismo que estão a empurrar os povos para becos de onde a saída aparente parece ser seguir o primeiro louco que aponte um qualquer caminho até ao precipício mais próximo.

O embaixador José Cutileiro, admirador confesso dos Estados Unidos e das suas políticas, procurava, na manhã de ontem, encontrar uma justificação para a eleição de Trump e, às tantas, afirmou que tal resultado não seria assim tanto de espantar num país em que um em cada quatro adultos ainda acredita que o Sol gira à volta da Terra. Talvez devesse ter acrescentado, parafraseando o marido da candidata derrotada, é a cultura… estúpido.

Salvou-me o dia o magnífico concerto de uma menina chamada Dom LA Nena que terminou com uma interpretação muito pessoal da famosa canção de Violeta Parra, Gracias a la Vida.

Não há Trump nem Clinton que consigam matar o sonho, embora seja verdade que podem mandar matar o sonhador.

Até para a semana

 

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