Um exemplo

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 25 Maio 2017
Um exemplo
  • Eduardo Luciano

 

 

Da viagem a Matera, capital europeia da cultura em 2019, ficam memórias, exemplos, reflexões e a possibilidade de comparar o caminho de uma pequena cidade italiana desde 2010 até à decisão, em 2014, com o processo iniciado por Évora em 2016.

Ficam exemplos que nos fazem sorrir, pela similitude com a nossa cidade e região, fica a angústia pela inexistência de uma região administrativa que, no caso de Matera, foi decisiva para a construção da candidatura, desde logo nos apoios financeiros obtidos.

Como devem imaginar esse é assunto para um relatório mais pormenorizado com aspectos que não cabem na leveza de uma crónica de três ou quatro minutos.

Das muitas trocas de experiências marcou-me em particular uma visita a Sassi, classificada como Património da Humanidade. Estarão a pensar em descrições pormenorizadas de valores patrimoniais, com narrativas construídas em torno de poderosos que mandaram erguer esta igreja ou aquele palácio, mas não foi nada disso que aconteceu.

O jovem guia levou-nos através de uma cidade construída e escavada, onde as pessoas viveram em grutas até à década de cinquenta do século XX. Ao mesmo tempo que nos mostrava as curiosidades do imbricado de casas e grutas foi explicando a vida miserável dos habitantes de Sassi, que partilhavam a sua casa com os animais de trabalho em situações de absoluta miséria.

Explicou-nos o processo de retirada dos habitantes para fora de Sassi, colocados em bairros residenciais na periferia de Matera e como isso, tendo mudado a vida das pessoas também destruiu os laços sociais que as ligavam.

Fez-nos olhar para o período fascista e para o pós-guerra, contou-nos da importância de um escritor, Carlo Levi, que Mussolini desterrou naquela região, e de como a sua obra “Cristo si è fermato a Eboli” sobre as pessoas que viviam em cavernas e estavam desprovidas de qualquer existência humana, foi importante para que se fizesse luz sobre Sassi.

Falou-nos de Pier Paolo Pasolini e do filme que ali realizou, sem artifícios de folclore e com um discurso que lhe permitiu dizer que o realizador era ateu, marxista e homossexual, afirmando com ironia que quase poderia ser a encarnação do diabo na época.

Passou rapidamente por cima do filme Mel Gibson, referindo-o apenas como uma mera curiosidade.

Voltou a centrar-se na história da miséria de um povo e contou-nos como depois da publicação da obra de Levi, muitos políticos ilustres visitaram e conheceram a realidade daquela Itália desconhecida, referindo como exemplo a visita de Palmiro Togliatti, à data dirigente do Partido Comunista Italiano.

Foi umas das visitas guiadas mais impressionantes a que assisti, pela forma como um jovem extraordinariamente culto soube fazer-nos viver o território que nos mostrava.

Querem um contraponto? O motorista de táxi que nos foi buscar ao aeroporto de Bari, apoiante do movimento cinco estrelas, que quando questionado sobre a importância de Matera como capital europeia da cultura, encolheu os ombros e apontou para a estrada mal tratada. Não sendo capaz de dizer mal, lá foi dizendo que era tudo uma merda. Ele, um apoiante de Beppe Grilo a falar de dentro do seu balde.

Até para a semana

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