Um festival de marionetas

Crónica de Opinião
Quinta-feira, 06 Junho 2019
Um festival de marionetas
  • Eduardo Luciano

 

 

Quase um mês depois da última crónica tenho uma colecção de temas sobre os quais me poderia debruçar. De Berardo à abstenção, do PAN à moda supostamente ecologista, da atracção pelos partidos aparentemente neutros do ponto de vista ideológico ao inchar de alguns sapos e rãs, dos julgamentos sumários no telelixo aos especialistas em mortes anunciadas, dos que fazem política buscando nas redes sociais o que está a dar aos que são tão desonestos que acham impossível existir gente diferente.

Olhando para todos estas possibilidades não consigo deixar de fazer a ligação entre tudo isto a arte dos marionetistas que por estes dias invadem as ruas da minha cidade.

Berardo, com as suas declarações na Assembleia da República, deu-nos a ilusão de ser um manipulador de marionetas do bloco central de interesses e foi apedrejado por todo o bicho careta que exigiu a devolução de medalhas, mas se olharmos com muita atenção percebemos que é uma peça menor de um sistema que se condecora a si próprio através de figuras mais ou menos boçais mais ou menos alarves mas sempre dispensáveis quando o que está em causa é a sobrevivência do capitalismo.

Os que se decidem pela abstenção invocando que o voto de nada serve porque são todos venais e corruptos, sem se darem ao trabalho de ouvir (ler seria bem mais complexo) o que uns e outros têm para dizer ficam com a ilusão de que cortam os fios que os ligam ao marionetista sem perceberem que apenas cumprem o desígnio que este lhes atribuiu no momento presente.

Os “novos ecologistas” que são manipulados para saírem em defesa do planeta, sem perceberem que sem porem em causa o sistema de produção assente no lucro estarão apenas a fazer cócegas à fúria predadora e destruidora do capitalismo, também se recusam a ver os fios grosseiros que determinam a sua acção.

Neste jogo, o telelixo manipula quem se prende em frente ao televisor para saber quem matou quem, ou quem quer casar com o agricultor, ou a desgraça mais próxima, ficando a marionete a pensar pela cabeça do manipular primário que por sua vez pensa pela cabeça do manipulador que é dono do teatro, que por sua vez pensa pela cabeça do dono da rede de teatros, que por sua vez pensa pela cabeça anónima de quem quer garantir a subsistência do sistema.

Talvez no fim da linha estejam os moralistas cheios de auto comiseração que vêem desonestidade em todo lado e que são tão desonestos, mas tão desonestos que nem conseguem imaginar outra forma de estar atribuindo aos outros intenções que só eles seriam capazes de praticar. Apesar de conhecerem Freud não lhe reconhecem a autoria da frase que por vezes um charuto é só mesmo um charuto.

De que estive eu a falar? De marionetas. A propósito de quê? Do regresso da Bienal Internacional de Marionetas de Évora que se iniciou com um desfile fantástico onde marcaram presença muitos cidadãos, marionetas, marionetistas e cabeçudos de diversas matizes.

Até para a semana

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