Um juiz discípulo de Blaise Pascal

Nota à la Minuta
Sexta-feira, 24 Janeiro 2020
Um juiz discípulo de Blaise Pascal
  • Alberto Magalhães

 

 

Até mesmo Blaise Pascal, célebre matemático, físico, filósofo e teólogo francês, do século XVII, um dos pais do cálculo de probabilidades, teria dificuldade em calcular as hipóteses de um juiz com as propriedades mentais de Ataíde das Neves, chegar a presidente do Tribunal da Relação do Porto; e, no entanto, Pascal também é lembrado por ser o autor da frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Para o douto juiz, o facto do seu colega, Eduardo Pires, ser sócio do Benfica desde pequenino, ser Águia de Ouro, ter lugar cativo na Luz, ser accionista da SAD e ter o seu clube no coração – factos que levaram o próprio a pedir escusa de julgar o recurso do caso dos emails do Benfica, em que o Porto, Porto SAD e Porto Canal foram condenados a pagar dois milhões de euros – não revelam (e cito) “qualquer vinculação especial com o clube”, pois é apenas mais um sócio entre milhares, (e cito de novo) “não deixando por isso de ser um desconhecido ou um não conhecido dos órgãos societários e desportivos ou de quem pessoalmente os integra, inexistindo qualquer tipo de relacionamento pessoal, nem de amizade nem de inimizade” e acrescenta demolidor, “essa relação de proximidade pessoal pura e simplesmente não existe”.

Diz mais, o sábio magistrado, para recusar a escusa do colega: “o senhor juiz [….] não é mais que um adepto do coração, mas o facto de ser do coração não lhe tolhe a razão, não quebra a sua imparcialidade e a sua isenção como juiz”.

Claro que não meritíssimo, toda a gente sabe que a paixão clubística não tolhe a razão humana, até a ajuda, quando não a transcende, como julgava Pascal. Vale a pena contrariá-lo?

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