Um portugalito

Crónica de Opinião
Quarta-feira, 29 Maio 2019
Um portugalito
  • José Policarpo

 

 

Após o interregno motivado pela campanha eleitoral das eleições para o parlamento europeu, cá estou eu de regresso às minhas crónicas de opinião na rádio diana. É um exercício que muito prazer me dá, desculpem o desabafo, mas às vezes temo em ser repetitivo e maçador.

A abstenção verificada nas eleições de domingo, salvo o erro, foi a mais alta verificada nosso país em todos os atos eleitorais, do pós-25 de abril. O presidente da república já temia que assim fosse, por isso, teve a necessidade de fazer o alerta. Mesmo assim, a maioria dos portugueses deram tanta importância a isso como um lambão dá aos produtos ligth. Nenhuma, portanto.

Na verdade, penso que, até, conceptualmente, aceite pela maioria dos cultores e doutores da ciência politica, o ato mais importante nas democracias representativas é o sufrágio. Com efeito, num país democrático em que a larguíssima maioria do seu povo se abstém de ir votar, poderá, até, se fazer muitas leituras, mas há uma que não poderá deixar de ser realizada: não interiorizou os poderes/deveres que lhe são dados pelo regime democrático.

Ao contrário daquilo que alegadamente as pessoas percecionam, sobretudo a grande maioria dos portugueses, embora a democracia confira muitos direitos, não confere menos deveres. A liberdade como direito fundamental em democracia não significa que cada um possa fazer o que lhe vem à cabeça, pois, como é evidente, isso geraria o caos na vida em comunidade.

Ora, a abstenção não poderá ser lida só como um voto de protesto e de descontentamento para com a situação atual. Porque, a não ida às urnas poderá ser motivada por muitas razões: a doença, o trabalho, um imprevisto de última hora, a preguiça, o esquecimento, enfim poderia aqui desfiar um ror de causas. Por isso, os descontentes só o podem fazer através do voto em branco. Se assim não o fizerem arriscam-se a que não sejam levados totalmente a sério.

Por último, dizer que a democracia é um exercício diário de cidadania, não se resume na ida às urnas de quatro em quatro anos, ou, de cinco em cinco anos, por que se estão convencidos, os que estão, a história, a isso, nos ensina que não. Os populistas, sempre encontraram terreno fértil para se instalarem quando os cidadãos se alheiam de exercer os seus direito/deveres. Votar, antes de ser um direito, é um dever de cidadania. Quem não entender isto, viverá, erradamente, em democracia.

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