Um Vírus chamado Pobreza

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 02 Março 2020
Um Vírus chamado Pobreza
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

O Corona Vírus pode transformar-se numa pandemia, se é que já não se transformou.
Em Portugal ainda não foi diagnosticado nenhum caso de infecção pelo vírus, mas ele andará por aí seguramente. É uma questão de tempo.

E quando tal acontecer, certamente que cada um de nós se dirigirá à Saúde 24, ao Centro de Saúde ao Hospital e não a um consultório privado ou a uma clínica.

São situações como esta que nos vêm mostrar a importância de termos um Serviço Nacional de Saúde dotado dos meios – humanos e materiais – necessários para responder às necessidades do país e que nos mostram a importância investir em políticas públicas.

Mas se este risco que o COVID 19 veio trazer às nossas vidas tem de ser combatido sem hesitações, um outro risco, social, mais profundo e mais mortal até, precisa de ser atacado com políticas públicas robustas e com forte determinação.

Falo da pobreza. Falo da exclusão social.

Segundo o INE, no final do ano passado, 21,6% dos residentes no nosso país estava em risco de pobreza ou exclusão social. E este dado não se refere apenas a desempregados ou pensionistas; são também pessoas que trabalham mas cujos salários são insuficientes para as retirar da pobreza. Segundo o Eurostat, em 2018 10% dos trabalhadores portugueses estavam em risco de pobreza.

No mesmo ano o IRHU afirmava que havia mais de 25.500 famílias com necessidades graves de realojamento, muitas delas vivendo em barracas ou outro tipo de alojamentos precários. O número é seguramente superior e o valor tem certamente aumentado dados os aumentos brutais das rendas e a quase inexistência de casas para arrendar, a que se junta o aumento descontrolado e especulativo do preço das casas para venda a que estamos a assistir.

Também no mesmo ano, estudos revelaram que cerca de 9% dos portugueses não compraram os medicamentos prescritos pelos médicos, por falta de dinheiro. Muitas têm de fazer escolhas para poder comprar os medicamentos e quem nunca assistiu a alguém, normalmente velho, perguntar na farmácia qual dos medicamentos receitados era para o coração, acabando por levar apenas esse?

Quase 20% da população portuguesa não tem capacidade de aquecer a sua casa no Inverno. É um valor três vezes superior ao do resto da Europa, e este valor sobe para o dobro quando falamos de população em risco de pobreza.

Como se vê não são apenas os vírus que matam. A pobreza mata.

Não é retórica, mata em sentido próprio.

A pobreza está ligada a pior saúde física e mental, como tem vindo a ser demonstrado e referido em estudos publicados, designadamente na revista médica the Lancet.

E quando falamos na pobreza como causadora de morte não estamos a falar apenas dos países mais pobres do mundo. Na Europa, a pobreza mata. Por cá a pobreza mata.

É também este vírus que se chama pobreza e que está instalado há muito na nossa sociedade, que temos obrigação de combater melhorando salários e pensões, adoptando uma real politica de habitação, com a criação de um parque habitacional público com rendas acessíveis, reduzindo os custos com a energia, pondo fim à pobreza energética em que se vive e pondo travão à precariedade no trabalho, que serve para impor baixos salários e obrigar os trabalhadores a aceitar indignas condições de trabalho.

Até para a semana!

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