Um voto para responder à crise

Crónica de Opinião
Segunda-feira, 18 Janeiro 2021
Um voto para responder à crise
  • Maria Helena Figueiredo

 

 

Estamos a poucos dias das eleições para Presidente da República, numa eleição em plena pandemia, como nunca houve outra, com uma campanha quase inexistente, feita principalmente nas redes sociais e, portanto, passando ao lado de uma boa parte da população.

Mas há também por aí quem queira desvalorizar esta eleição dizendo que tradicionalmente os presidentes em exercício ganham a reeleição, criando assim a convicção de que não merece a pena ir votar.

Nada mais errado.

Estamos a atravessar um momento crucial da nossa vida colectiva em que nos confrontamos com enormes desafios: Estamos a braços com a maior crise sanitária de que há memória e não sabemos que consequências deixará; estamos a braços com uma crise económica sem paralelo, em que as pequenas empresas estão em risco de desaparecer e não lhe sabemos o desfecho; Estamos a braços com uma crise social, em que centenas de milhares de concidadãos perderam os empregos e os rendimentos e os apoios sociais não chegam.

E estamos a braços com uma crise climática cujo combate exige uma capacidade de luta e determinação nos anos mais próximos, que não temos visto.

Votar nestas circunstâncias é um imperativo. É um dever cívico formal que devemos cumprir, mas é principalmente o direito de dizer que linha de orientação política na Presidência, que Presidente, queremos para o nosso país. E dos nossos direitos a gente não deve abdicar.

Eu não abdico de, através do voto, dizer quem quero que seja Presidente deste país, o que lhe exijo e o que espero que seja capaz de cumprir.

Não me basta alguém que interprete os poderes presidenciais apenas formalmente, que olhe para a Constituição com os olhos dos grandes interesses e que a aplique conforme as conveniências de alguns ou a popularidade que se obtém.

Quero alguém que não tenha medo de enfrentar a banca e as suas negociatas nem as confederações patronais, não permitindo que, com a desculpa da pandemia, empresas com lucros despeçam trabalhadores apesar de terem beneficiado de apoios públicos.

Quero confiar em quem, neste momento em que o Serviço Nacional de Saúde está à beira do colapso, não alinhe no discurso dos grupos privados da saúde que pretendem fazer negócio e, pelo contrário, ponha à frente destes o interesse público e apoie requisição de todos os meios privados ou do sector social da saúde, compensando-os dos exactos custos que tiverem.

Quero alguém que não se limite a elogiar o esforço dos médicos, enfermeiros e restantes trabalhadores da saúde, mas use dos seus poderes e influencia para lhes sejam garantidas condições de trabalho, salários e carreiras correspondentes ao esforço que lhes é pedido e aos riscos que correm.

Na Presidência quero alguém que olhe para o país com olhos de ver; Olhos de ver tantos e tantas que continuam invisíveis. Alguém que tenha a coragem e firmeza para lhes dar visibilidade e lutar por eles e por um país menos desigual.

Quero como Presidente quem defenda as cuidadoras e cuidadores informais, gente de enorme generosidade que abdica da sua carreira, do seu bem-estar económico, das suas vidas para cuidar de filhos com deficiência ou dos pais com Alzheimer e que continua a não ter nada, e que apesar de terem conseguido o reconhecimento do seu estatuto não o vêm ainda aplicado;

Quero na Presidência alguém que não feche os olhos à situação dos trabalhadores precários, primeiros a ser despedidos nesta crise pandémica, dos agentes das forças de segurança, dos trabalhadores da higiene, ou dos imigrantes trazidos para trabalhar na agricultura, nas limpezas, ou para as plataformas como a uber.

Quero como Presidente quem ponha na agenda política as questões ambientais, a transparência, o combate à corrupção.

Quem estiver na Presidência tem de ter força para lutar pela a igualdade e direitos humanos, e pela dignidade na morte.

Poderão dizer que há muitas coisas que não são competência do ou da Presidente. Mas garanto-vos que muitas são e, sobretudo, é sempre da responsabilidade de quem exerce a chefia do Estado trazer ao debate político, mobilizar as vontades e fazer as pontes necessárias para encontrar os entendimentos que permitam concretizar esta agenda.

É em quem já mostrou essa capacidade de luta e de construir entendimentos que vou votar.

No domingo exerçam o vosso direito e votem também.

Protejam a vossa saúde

Até para a semana.

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